Simpósio na Alesp discute desafios no abastecimento de mercadorias na Grande São Paulo Setor defendeu a padronização de regras do transporte rodoviário de cargas e a adoção de medidas para reduzir o custo de vida.

28/03/2026

Os desafios do transporte rodoviário de cargas na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) foram debatidos nesta quinta-feira (26), na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, por representantes do setor, parlamentares e especialistas em segurança, durante simpósio da Federação das Empresas de Transportes de Cargas do Estado (Fetcesp).

No evento, o deputado estadual Capitão Telhada (PP) afirmou que pretende apresentar um projeto de lei para padronizar as regras de circulação aplicáveis aos veículos urbanos de carga (VUCs) - caminhões menores que transitam em áreas com restrição. Atualmente, cada município impõe horários distintos de rodízio e exige dimensões diferentes para as frotas.

"Vamos trabalhar um projeto de lei que regulamente a mobilidade de carga nas regiões metropolitanas, garantindo ao transportador regras e horários claros e unificados de atuação", declarou Telhada.

O presidente da Comissão de Transportes e Comunicações (CTC) da Alesp, deputado Ricardo Madalena (PL), disse que o colegiado "atua para fazer a ponte entre as demandas logísticas" do setor produtivo e o governo paulista. O parlamentar destacou ainda o papel crucial dos transportadores no abastecimento da população.

Ao comentar as restrições de trânsito, lideranças do setor rodoviário, como o presidente da federação, Carlos Panzan, afirmaram que a divergência entre normas municipais eleva os custos da cadeia de suprimentos e afeta diretamente o abastecimento de supermercados, farmácias e hospitais na Grande São Paulo.

Segurança jurídica

Para o consultor jurídico da Fetcesp, Marco Aurélio Ribeiro, a padronização das regras é essencial para garantir segurança jurídica.

"Hoje, as regras divergem de uma cidade para a outra dentro da mesma mancha urbana, exigindo cadastros e taxas variadas. Isso encarece o frete e impacta o consumidor final", disse.

Ribeiro também alertou para os efeitos da reforma tributária. Segundo ele, o novo regime deve transformar a dinâmica logística do país e atrair centros de distribuição para o entorno de grandes centros urbanos, como as metrópoles paulistas - consideradas o maior polo de consumo do país.

Roubo de carga

O delegado da Polícia Civil Waldomiro Pompiani Milanesi defendeu maior integração entre o poder público e o setor de transportes no combate ao roubo de cargas, que, segundo ele, "não é um fato isolado, é um fenômeno criminal, econômico e logístico".

"Não se faz segurança pública sozinho, apenas com as forças policiais. É preciso inteligência compartilhada, foco na receptação e cooperação com o setor de transportes", afirmou.

Ele também defendeu a ampliação do uso de tecnologia para monitorar o escoamento de mercadorias no território paulista.

No âmbito legislativo, destacou o impacto de normas mais rigorosas em vigor em São Paulo, como a Lei 15.315/2014, que prevê a cassação da inscrição estadual de estabelecimentos flagrados com produtos ilícitos.

Infraestrutura defasada

Na palestra sobre o cenário atual do transporte rodoviário de cargas, o empresário e vice-presidente da Fetcesp, Urubatan Helou, afirmou que a defasagem da infraestrutura viária é o principal fator de encarecimento do setor.

Com base em estudo da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Helou disse que o Brasil possui 1,72 milhão de quilômetros de rodovias, dos quais 78% não são pavimentados. O levantamento indica ainda que, enquanto o número de veículos cresceu 42,5% entre 2014 e 2024, a malha pavimentada recuou 0,1%.

Helou comparou os prejuízos do estrangulamento viário aos da violência nas rodovias. Enquanto o roubo de cargas gera perdas anuais de R$ 1,2 bilhão, o desperdício causado pela má qualidade das estradas - com consumo adicional de 1,18 bilhão de litros de diesel - chega a cerca de R$ 7 bilhões por ano.

"O setor luta bravamente para combater a chaga do roubo de carga, mas nós rasgamos sete vezes esse valor em dinheiro jogado fora no asfalto ruim", afirmou.

Presenças

Também participaram do simpósio o vice-presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Flávio Benatti; o presidente da Fundação Memória do Transporte (Fumtran), Antonio Luiz Leite; e o ex-presidente da Alesp Vanderlei Macris.