
Crise hìdrica
Crise hídrica em São Paulo vai além da falta de chuvas, apontam especialistas em seminário na Alesp
Representantes de entidades ambientais destacaram que má gestão dos recursos hídricos paulistas agrava situação e causa impactos desiguais da falta d'água; evento foi promovido pela deputada Marina Helou na semana do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março
São Paulo está com dificuldades para manter a água na torneira em 2026, principalmente nos bairros mais periféricos. É o que especialistas apontaram em seminário realizado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, nesta quinta-feira (26). Além da falta de chuvas, problemas na gestão, manejo e distribuição da água também agravam a situação e causam impactos desiguais da falta d'água no território.
O encontro, promovido pela deputada Marina Helou, teve o objetivo de discutir caminhos para resolver a baixa nos reservatórios do estado e a qualidade da água distribuída para a população. Estiveram presentes representantes do Instituto Água e Saneamento (IAS), do Observatório da Governança das Águas (OGA), da Central dos Movimentos Populares (CMP) e da SOS Mata Atlântica.
"É nas periferias mais distantes que a água já não chega. E é por isso que precisamos discutir com mais transparência o que está acontecendo agora com a água do nosso estado e os riscos se não nos prepararmos", afirmou a parlamentar.
A coordenadora do IAS, Paula Pollini, enfatizou que a escassez recai de maneira desigual sobre as pontas do sistema. "Enquanto áreas centrais e prédios são menos afetados, moradores das periferias enfrentam falta de abastecimento ao chegar em casa à noite", disse. Segundo a ambientalista, é fundamental discutir como os reservatórios de São Paulo vão responder à redução das chuvas, evitando a repetição da crise hídrica de 2014/2015.
Marina Helou defendeu que deve ser prioridade reconhecer a situação e informar a população sobre o uso da água. "Em 2014, o mecanismo de bonificação para quem conseguisse economizar mais água funcionou e acredito que deveria voltar a ser implementado, porque bonifica a população e não a prejudica ainda mais", defendeu.
Dados
De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em fevereiro, o Sistema Cantareira - maior e mais importante sistema de abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo - encerrou o mês com 36% do volume útil, permanecendo consideravelmente abaixo do observado no mesmo período de 2025 (60%).
O boletim mostra ainda que, para que o cenário não se agrave, as chuvas precisam ficar 25% acima da média histórica. As previsões para o mês de setembro, fim do período de estiagem, apontam que o sistema pode atingir os estados de restrição (entre 20% e 30%), ou até emergência (abaixo de 20%), caso a precipitação fique abaixo da média.
Além disso, o relatório mais recente da SOS Mata Atlântica, lançado em março de 2026, aponta uma estagnação na qualidade precária da água dos rios da Mata Atlântica. Dos 115 pontos analisados no Brasil, 5 permaneceram na condição "péssima", incluindo o rio Pinheiros e o rio Jaguaré, na cidade de São Paulo, e o ribeirão dos Meninos, em São Caetano do Sul.
Avaliação
Para o coordenador de projetos da SOS Mata Atlântica, Gustavo Veronesi, esse cenário já enquadra uma crise hídrica bem preocupante. "Estamos convivendo com redução de pressão quase metade do dia e as pessoas estão tendo que moldar o seu cotidiano conforme tem água ou não na torneira", relatou.
Veronesi avaliou que as chuvas de março trouxeram alívio momentâneo aos reservatórios, mas alertou para a necessidade de planejamento diante da aproximação do período seco no outono e inverno. "Por isso, precisamos falar muito sobre esse assunto. É muito preocupante a atual situação da nossa água", afirmou. Para ele, é preciso resolver os problemas de saneamento básico, proteger florestas e nascentes para garantir água limpa para todos.
Para o representante da ONG, a situação não pode ser atribuída apenas à falta de chuva. Fatores climáticos extremos não representam todo o problema. "O que enfrentamos vai além de uma crise hídrica. Trata-se de uma crise de gestão da água", afirmou. Ele defende a necessidade de aprimorar significativamente a administração dos recursos hídricos para que cheguem de forma justa em todos os locais do estado, além de fortalecer os comitês de bacias hidrográficas, responsáveis por essa gestão.

