Período de Redemocratização Política do Brasil ou Nova República, como alguns historiadores preferem chamá-lo.

Período  de Redemocratização Política do Brasil ou Nova República, como alguns historiadores preferem chamá-lo.

Podemos classificar o período que abrange o fim do governo Figueiredo, em 15/03/1985, até o momento atual, um período  de Redemocratização Política do Brasil ou Nova República, como alguns historiadores preferem chamá-lo.

No final de 1983 e início de 1984, a campanha pelas eleições diretas para presidente da República tomou conta do país. Era a campanha das Diretas , que contou com a adesão de milhões de pessoas.

O movimento das Diretas Já era favorável e apoiava a emenda do deputado Dante de Oliveira que restabeleceria as eleições diretas para presidente da República no Brasil, e contou diversos eventos como passeatas e comícios em diversas regiões do Brasil.

O movimento Pró-Diretas contou com diversas figuras políticas como Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso, Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, José Serra, Mário Covas, Teotônio Vilela, Eduardo Suplicy, Leonel Brizola, Luís Inácio Lula da Silva, Miguel Arraes, entre outros. Contou também com a presença de artistas, jogadores de futebol, cantores, religiosos…

O dia da votação da emenda pela Câmara Federal foi 25 de abril de 1984. O governo pressionou os deputados e senadores, e a emenda não foi aprovada. Faltaram 22 votos. Um sentimento de frustração tomou conta de muitos brasileiros.

A eleição do sucessor do general Figueiredo seria indireta, isto é, só os deputados e senadores votariam. Em mais de 50 milhões de eleitores, votariam apenas 686 brasileiros: os senadores, os deputados federais e seus representantes de cada Assembleia Legislativa.

Os militares não indicaram candidato. 

O PMDB, com o apoio de dissidentes do PDS (que formaram a Frente Liberal), lançou como candidato o governador mineiro Tancredo Neves. 

O PDS indicou o ex-governador de São Paulo, o deputado Paulo Maluf.

A eleição ocorreu no dia 15 de janeiro de 1985. O vencedor foi Tancredo Neves, com grande maioria de votos.

Porém, em função de uma doença, Tancredo faleceu antes de assumir o cargo, em 21 de abril de 1985.

Por isto, o trono da presidência do Brasil passou a seu vice, José Sarney, que assume o poder como primeiro presidente civil, depois 21 anos sem eleição direta para presidente no Brasil.

1-GOVERNO de  Governo José Sarney

Presidente Sarney 

Dentre as primeiras medidas do governo Sarney, a mais importante no campo político foi restabelecer a eleição direta para presidente da República. 

As restrições à organização de partidos políticos também foram diminuídas.

Mas era no campo econômico que se esperavam as medidas mais significativas, pois a inflação continuava afetando seriamente a economia. Para derrubar a inflação, o governo Sarney lançou um plano de grande impacto em 28 de fevereiro de 1986.

PLANO CRUZADO

Era o Plano Cruzado, que consistia de dois pontos principais: substituição do cruzeiro pelo cruzado – cada cruzado correspondia a mil cruzeiros, e congelamento dos preços e salários.

Inicialmente a maioria da população apoiou as medidas do governo. Muitos consumidores fiscalizavam os preços e denunciavam os comerciantes que não os respeitavam.

 Mas logo surgiram problemas: 

  • começaram a faltar mercadorias
  • empresários passaram a fazer pequenas modificações (maquiagem) nos produtos para lançá-los como novos, com preço mais alto;
  •  fazendeiros negavam-se a vender o gado pelo preço de tabela; 
  • os empresários e comerciantes começaram a cobrar ágio – valor além dos preços de tabela – dos produtos em falta no mercado;
  •  o valor dos aluguéis novos disparou…

O governo não conseguia resolver esses problemas, pois o controle dos preços era muito difícil num país tão grande. E algumas matérias-primas importadas tinham seu preço constantemente aumentado, levando os fabricantes a repassar esse aumento ao preço dos produtos nacionais.

No fim desse ano (1986), passadas as eleições de 15 de novembro, a inflação voltou a subir.

 

 O ministro da Fazenda, Dílson Funaro, responsável pelo Plano Cruzado, demitiu-se e foi substituído por Luís Carlos Bresser Pereira, que tentou, sem êxito, controlar a crise e também saiu do governo no final de 1987. Seu sucessor, Maílson da Nóbrega, também não obteve sucesso com o Plano Verão, de janeiro de 1989, que novamente congelou preços e salários e substituiu o cruzado pelo cruzado novo. No final governo Sarney a inflação chegou a 85% ao mês.

 

A Constituição de 1988

Em 15 de novembro de 1986, foram eleitos novos deputados e senadores; além das tarefas normais como congressistas, eles tinham a importante incumbência de elaborar uma nova Constituição. Por isso, esse Congresso tinha também a função de Assembleia Nacional Constituinte.

Os trabalhos foram iniciados em fevereiro de 1987.

A Constituição era uma antiga reivindicação da sociedade, que a considerava importante para acabar com as leis da ditadura que ainda vigoravam.

Diversos setores da sociedade mobilizaram-se para participar da Constituinte, nas diversas comissões que se formara. A legislação relativa ao trabalho e ao vínculo dos empregados com as empresas sofreu diversas alterações.

A Constituição, promulgada em 5 de outubro de 1988, foi chamada de “Constituição Cidadã”, por Ulysses Guimarães, presidente do Congresso na época.


 

As novas relações de trabalho na Constituição de 1988:

  • Salário: ao sair de férias, o trabalhador tem direito a um abono igual a 1/3 de seu salário; o empregado demitido deverá receber uma indenização correspondente a 40% de seu FGTS; todo trabalhador que recebe até dois salários mínimos mensais terá um abono de um salário mínimo no final do ano, pago pelo governo; as horas extras valerão 50%.

 

  • Direito de greve: tornou-se praticamente irrestrito.

 

 

  • Jornada de trabalho: a jornada semanal baixou de 48 para 44 horas; a jornada diária de trabalho em turnos ininterruptos de revezamento passou a ser de no máximo seis horas.

 

  • Aposentadoria: os aposentados passam a receber 13º salário; nenhuma aposentadoria será inferior a um salário mínimo.

 

 

  • Licençamaternidade: passa de 90 para 120 dias; passa a existir a licença-paternidade, inicialmente de cinco dias.

 

Outras mudanças consideradas importantes na Constituição de 1988 foram:

  • estabelecimento de dois turnos nas eleições para presidentes, governadores e prefeitos de cidades com mais de 200 mil eleitores;
  • voto facultativo entre os 16 e os 18 anos;
  • proibição da comercialização de sangue e seus derivados;
  • fim da censura no rádio, na televisão, no cinema etc.;
  • leis de proteção ao meio ambiente…

 

Os povos indígenas tiveram reconhecidos e definidos importantes direitos relativos às suas terras e à sua identidade cultural e étnica.

2.  Governo Collor de Mello

 

Fernando Collor de Mello 

Finalmente, em novembro (1º turno) e dezembro (2º turno) de 1989 realizaram-se eleições diretas para presidente.   O vencedor foi Fernando Collor de Mello, que derrotou, em 2º turno, Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do Partido dos Trabalhadores. Collor assumiu no dia 15 de março de 1990. Havia grande expectativa em relação à sua posse, pois ele foi o primeiro presidente eleito diretamente pelo voto popular em quase trinta anos em uma eleição verdadeiramente democrática, já que o direito ao voto era extensivo aos analfabetos, aos jovens maiores de 16 anos etc. A experiência era grande, sobretudo em relação às medidas econômicas que seriam tomadas pelo novo governo em virtude da gravidade da situação do país, que se caracterizava por uma inflação extremamente elevada.

Por isso, as atenções se concentraram no plano econômico do novo presidente, que foi anunciado em parte no dia da posse e definido na sua totalidade no dia seguinte.

A principal medida econômica, tomada no primeiro dia do governo Collor, foi o bloqueio de grande parte do dinheiro que as pessoas e as empresas tinham nos bancos, em conta corrente, em cadernetas de poupança e em outras formas de aplicação; o objetivo dessa medida era diminuir o volume de dinheiro em poder das pessoas e, assim, conter a inflação.

A moeda brasileira voltou a ser o cruzeiro.

 

Além do objetivo de conter a inflação, faziam parte do plano econômico de Collor:

  • privatização de empresas estatais;
  • fechamento de órgãos do governo e venda de carros, casas e apartamentos de propriedade do governo;
  • abertura da economia ao capital externo e às importações de produtos estrangeiros;
  • demissão de funcionários públicos.

 

Mudanças na equipe econômica

Chefiado pela ministra Zélia Cardoso de Mello, o Ministério da Economia passou a ser o principal ponto de atenções do novo governo, diante da necessidade que se colocava de eliminar a inflação.

 Graças ao choque – medidas tomadas por esse novo governo –, a inflação baixou a níveis inferiores a 10% nos primeiros meses da nova administração.

Nenhum outro setor da vida nacional recebeu tanta atenção do governo Collor, que se concentrou, nos primeiros meses, no combate à inflação.

Apesar de todas as iniciativas, a situação do país continuou difícil, sobretudo porque a principal consequência da política econômica de Collor foi a recessão, com queda dos salários e aumento do desemprego.

 

Diante do fracasso de sua política, Zélia Cardoso de Mello abandonou o governo em maio de 1991, sendo substituída por Marcilio Marques Moreira.

No final de 1991, além de grave recessão, com diminuição da atividade econômica e com desemprego generalizado, a inflação voltava a elevar-se para níveis de 20% ao mês e continuou a subir durante o ano de 1992.

“Fora, Collor”

De maneira geral, Collor não cumpriu suas promessas de campanha, pois a inflação, que ele prometera abater com um tiro só, depois de alguns meses voltou com bastante força; havia prometido governar para os “descamisados” e “pés descalços”, mas não houve redistribuição de renda; jurou acabar com os “marajás” (funcionários públicos com altos salários e que pouco trabalhavam) e colocar os corruptos na cadeia, mas ele mesmo passou a usufruir de vantagens de uma rede de corrupção; comprometeu-se a pagar dignamente os aposentados, mas negou-lhes os reajustes devidos, levando-os às ruas, em passeatas e outras manifestações públicas, para exigir o respeito aos seus direitos.

Uma das campanhas do governo Collor foi uma bem organizada campanha publicitaria em torno da imagem do presidente. Ele era apresentado como homem dinâmico e praticante de esportes. A imprensa e a televisão mostravam-no correndo aos domingos, vestindo camisetas com frases de efeito, dirigindo jet-ski e pilotando caça supersônico.

 

Aos poucos, porém, foram aparecendo na imprensa informações sobre casos de corrupção que se multiplicavam em quase todos os setores do governo: no Ministério da Saúde, foram compradas bicicletas, mochilas e guarda-chuvas em quantidades desnecessárias e a preços acima dos de mercado; em outros ministérios, eram contratadas para fazer obras públicas, sem licitação, empreiteiras que haviam contribuído com dinheiro para a campanha do presidente; a publicidade oficial era encaminhada às agências que haviam feito a propaganda eleitoral de Collor; houve denúncias de desvio de dinheiro da Legião Brasileira de Assistência (LBA), presidida pela esposa de Collor.

As denúncias se avolumavam, envolvendo o nome do tesoureiro da campanha presidencial, o empresário alagoano Paulo César Farias, o PC. No início de 1992 o próprio irmão do presidente, Pedro Collor, denunciou e confirmou a existência do esquema de corrupção generalizada que tomava conta do governo.

 

O processo contra Collor

 

O Congresso Nacional formou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as denúncias do irmão do presidente. Inicialmente, os trabalhos da CPI andaram muito devagar, pois era difícil conseguir provas.

 Mas, a partir do depoimento de Eriberto França, motorista de Ana Acioli, secretária de Collor, o vasto esquema de corrupção, envolvendo centenas de milhões de dólares, começou a ser conhecido: grandes empresas, para obter favores do governo, pagavam milhares de dólares às empresas de Paulo César Farias.

 Este, por meio de contas bancárias fantasmas, com nomes fictícios, encaminhava parte do dinheiro à conta de Ana Acioli, que o utilizava para pagar as despesas particulares de Collor – como a reforma de sua casa, por exemplo – e de seus familiares e amigos.

 Houve também denúncias de envio de milhões de dólares ao exterior, transportados por aviões particulares de PC.

Milhares de pessoas, especialmente estudantes – que ficaram conhecidos como caras-pintadas, por pintarem o rosto com as cores da bandeira nacional –, foram às ruas em grandes manifestações, exigindo o afastamento do presidente. “Fora, Collor” era o grito dos manifestantes.

O movimento Fora Collor, mobilizou a campanha dos ‘Caras Pintadas’, em passeata pedindo impeachment de Collor em 1992 .

No dia 29 de setembro de 1992, com base no relatório da CPI, a Câmara dos Deputados, por grande maioria de votos, autorizou o Senado a processar e julgar o presidente. De acordo com a Constituição, Collor foi afastado por 180 dias.

A campanha dos Caras Pintadas e do movimento Fora Collor, cooperaram para o surgimento ou desenvolvimento no vocabulário político dos brasileiros, uma nova expressão: 

Impeachment, termo inglês que pode ser traduzindo - impugnação ou impedimento e que “… denomina o processo de cassação de mandato do chefe do poder executivo pelo congresso nacional, pelas assembleias estaduais ou pelas câmaras municipais. A denúncia válida pode ser por crime comum, crime de responsabilidade, abuso de poder, desrespeito às normas constitucionais ou violação de direitos pétreos previstos na constituição”. 

 Com o afastamento de Collor, Itamar Franco, vice-presidente, assumiu interinamente a Presidência e três meses depois, no dia 29 de dezembro de 1992, ao ter início o julgamento do Senado, percebendo que seria derrotado, Collor renunciou ao seu mandato de presidente da República.

 

No mesmo dia, Itamar Franco foi empossado como presidente efetivo do Brasil.

Apesar da renúncia, o Senado continuou o julgamento de Collor e suspendeu seus direitos políticos por oito anos.

Depois de 14 anos, Collor volta ao poder, em 1º de fevereiro de 2007, como Senador, pelo estado de Alagoas, pelo partido PRTB, eleito nas eleições de 2006, com 44,04% dos votos válidos, conforme o site: G1 – Notícias- 1º/10/2006.

 

3.  Governo Itamar Franco

Itamar Augusto Cautiero Franco 

 

Com Collor afastado, Itamar Franco exerceu a Presidência da República durante os anos de 1993 e 1994. Sua principal tarefa era baixar a inflação, que tinha voltado a subir, e criar uma moeda estável, que não perdesse valor a cada dia.

Itamar Franco convidou o sociólogo Fernando Henrique Cardoso para ocupar o Ministério da Fazenda, Fernando Henrique já ocupava o Ministério das Relações Exteriores. Com carta-branca do presidente, Fernando Henrique formou uma equipe com economistas que já haviam trabalhado em governos anteriores. Junto com eles, elaborou o Plano Real, que foi introduzido em etapas, passando a vigorar plenamente em 1º de julho de 1994.

O Plano Real consistiu na adoção de uma nova moeda, o real, que substituiu o cruzeiro real; o objetivo era manter a estabilidade da moeda, isto é, fazer com que o seu valor permanecesse o mesmo ou que variasse pouco.

O plano Real conseguiu fazer a inflação cair quase a zero. Os preços dos produtos se estabilizaram. Os salários deixaram de perder valor. Com essa estabilidade econômica, um grande número de pessoas, sobretudo as de baixa renda, passou a poder comprar mais alimentos e produtos como roupas, eletrodomésticos etc. O consumo desses produtos aumentou bastante nos primeiros meses do plano.

Novas eleições

Em abril de 1994, com o Plano Real já encaminhado, Fernando Henrique Cardoso deixou o Ministério da Fazenda para candidatar-se à Presidência da República nas eleições de outubro do mesmo ano.

Como Fernando Henrique era filiado ao PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), um partido pequeno, aliou-se ao PFL (Partido da Frente Liberal) e ao PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), dois partidos conservadores. Conseguiu ainda o apoio de grandes empresários, de multinacionais e dos principais meios de comunicação (jornais, rádios, revistas, televisão); o objetivo era fazer frente a Luiz Inácio Lula da Silva, do PT (Partido dos Trabalhadores), que aparecia em posição vantajosa nas pesquisas de opinião.

O programa de Lula baseava-se nos seguintes pontos:

  • distribuição de terra aos trabalhadores do campo, mediante a reforma agrária;
  • diminuição das desigualdades sociais, por meio de programas de redistribuição de renda;
  • melhoria das condições de alimentação, moradia, educação e saúde das camadas mais pobres da população.

A situação de estabilidade proporcionada pelo Plano Real fez a maioria dos eleitores votar em Fernando Henrique, que venceu no primeiro turno. Fernando Henrique Cardoso (FHC) assumiu a Presidência no dia 1º de janeiro de 1995, para um mandato de quatro anos.

4.  Governo Fernando Henrique Cardoso

 

Fernando Henrique Cardoso 

O ponto mais importante do programa de governo de Fernando Henrique Cardoso era garantir a estabilidade econômica, isto é, segurar a inflação próxima a zero.

Para garantir a estabilidade da moeda, a equipe econômica do novo governo adotou uma série de medidas, que foram seguidas de maneira bastante rígida. A principal medida consistiu em manter o real com um valor constante em relação ao dólar, com pequenas variações. Fez-se isso controlando a quantidade de dólares em reservas no país: quando essa quantidade diminuía, o valor do dólar tendia a subir; então o governo colocava mais dólares em reservas, vendendo-os a quem precisava, o que fazia com que o seu valor voltasse a cair e o real se mantivesse estável em relação a essa moeda.

O governo passou a oferecer juros altos aos bancos e fundos estrangeiros que quisessem aplicar dinheiro (dólares) no Brasil. Com isso, grandes somas de dólares entraram no país e o governo podia utilizá-las como reservas no Banco Central.

Reformas e privatizações

Fazia parte também do programa de governo a reforma de diversos artigos da Constituição, a fim de modernizar a administração pública, reduzir os gastos do governo e melhorar o desempenho das empresas.

O Congresso aprovou mudanças na Constituição que acabaram com o monopólio do governo nas áreas de telecomunicações, energia elétrica e extração e refino de petróleo.

Isso permitiu que o governo colocasse à venda empresas estatais de telefonia e de energia elétrica, além de siderúrgicas, estradas de ferro, companhias hidrelétricas e distribuidoras de eletricidade, entre outras. Esse processo, chamado de privatização, ocupou boa parte do governo Fernando Henrique Cardoso. Bilhões de dólares foram arrecadados com a venda dessas empresas, realizada sob a forma de leilão, na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. O dinheiro foi em grande parte utilizado para pagar os juros da dívida pública do governo. A maioria das empresas foi vendida para multinacionais estrangeiras.

Seguindo os procedimentos do governo federal, governos estaduais e municipais também venderam empresas públicas.

Na área de petróleo, o governo assinou concessões com empresas estrangeiras para a pesquisa e a extração de petróleo no Brasil. Antes, somente a estatal Petrobras podia fazê-lo.

Outro ponto importante da reforma constitucional referia-se à Previdência. Nesse setor a reforma não ocorreu como o governo desejava. Os gastos do governo com a Previdência – pessoas aposentadas em empresas particulares e funcionários públicos – são muito altos, causando um pesado déficit nas contas do governo, isto é, o governo gasta mais do que arrecada.

 

A reeleição

Fernando Henrique Cardoso dedicou também grande esforço político para conseguir a aprovação de uma mudança na Constituição que permitisse a reeleição do presidente da República. Em 1997, o Congresso aprovou a reeleição do presidente, dos governadores e dos prefeitos, estabelecendo o mandato em 4 anos.

Com isso, Fernando Henrique à reeleição; as eleições se realizaram no dia 4 de outubro de 1998. Seu principal oponente era Luiz Inácio Lula da Silva, que concorria ao cargo pela terceira vez.

Fernando Henrique saiu vitorioso nas eleições. Mas os partidos de oposição elegeram os governadores de seis estados: Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Acre (PT), Rio de Janeiro (PDT), Alagoas e Amapá (PSB).

Crise política e crise financeira

Alguns dos novos governadores entraram em conflito com o governo federal, pois herdaram pesadas dividas dos governos anteriores e desejavam condições favoráveis para pagá-las. O conflito mais grave ocorreu com o governador de Minas Gerais, Itamar Franco. Apesar de ter sido eleito pelo PMDB, um dos partidos da base governista, Itamar Franco se constituiu um dos principais opositores de Fernando Henrique.

Uma das crises mais graves do governo Fernando Henrique aconteceu em janeiro de 1999.

Como vimos, para manter a inflação baixa e o real estável em relação ao dólar, o governo estimulava a entrada de dólares. Bancos e fundos estrangeiros tinham altos ganhos e remetiam continuamente mais dólares ao brasil. Esses dólares eram usados para controlar o valor do real. Em meados de 1998, o Banco Central possuía quase 75 bilhões de dólares em reservas.

No segundo semestre de 1998, uma grave crise financeira atingiu a Rússia, que ficou sem dólares para pagar sua dívida externa. Os investidores que haviam aplicado dinheiro no Brasil ficaram com receio de que o mesmo pudesse acontecer aqui, e passaram a retirar os dólares que haviam aplicado. As reservas do Banco Central foram caindo continuamente. No dia 13 de janeiro de 1999, o governo brasileiro não dispunha de quantidade suficiente de dólares para controlar o valor do real. E deixou que a moeda norte-americana fosse negociada livremente, sem o controle do governo. Com isso, o real perdeu valor para o dólar, ou seja, sofreu uma desvalorização.

As consequências foram muito graves para a econômica brasileira. Muitas empresas foram prejudicadas, pois tinham dívidas em dólar. O governo foi obrigado a manter os juros altos, a fim de tentar atrair dólares de fora. Com isso, as empresas diminuíram a produção e dispensaram empregados, aumentando o desemprego.

Um aspecto positivo da desvalorização do real foi que ela dificultou as importações (quem importa deve dar mais reais por dólar) e favoreceu as exportações (quem exporta ganha mais reais por dólar).

Apesar da crise de 1999, a economia brasileira apresentou significativa melhora em 2000, com o aumento da oferta de emprego, o crescimento do PIB em torno de 4% e a inflação sob controle. Mesmo com esse quadro favorável, os partidos de oposição obtiveram expressivo avanço nas eleições municipais daquele ano, sobretudo nas grandes cidades, elegendo, entre outros, os prefeitos de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife.

As perspectivas otimistas para a economia em 2001, porém, foram frustradas por duas crises, uma de natureza política e outra do setor energético. Políticos ligados ao governo acabaram envolvidos em escândalos, como o da violação do painel de votação do Senado. O episódio provocou a renúncia aos mandatos dos senadores Antônio Carlos Magalhães, ex-presidente do Senado e um dos principais aliados de FHC, e José Roberto Arruda, líder do governo no Senado. As denúncias de corrupção atingiram também o presidente do Senado, Jader Barbalho.

 Esses acontecimentos enfraqueceram as ações do governo e dificultaram o andamento das reformas estruturais no Congresso, como a reforma fiscal.

No entanto, o pior ainda estava por vir.

A partir de maio de 2001, uma grave crise de energia atingiu as regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste do país. O fornecimento de energia nessas regiões ficou comprometido devido à falta de investimentos no setor e ao baixo nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas, atingidos pela seca. O governo impôs um rigoroso plano de racionamento de energia. Com isso, a indústria e comércio foram obrigados a reduzir suas atividades e a população passou a conviver com o medo do apagão – suspensão temporária do abastecimento de energia elétrica.

O mercado financeiro reagiu mal à medida. O racionamento, somado a uma gravíssima crise econômica na Argentina, provocou a alta do dólar (a maior já verificada até aquele momento no governo FHC) e o risco de aumento da inflação. Muito embora a inflação tenha sido mantida sob controle, não alcançando dois dígitos, os analistas tiveram que rever as projeções de crescimento do PIB para o ano de 2001. Ele cresceu bem abaixo das expectativas, fenômeno que se repetiu no primeiro semestre de 2002. Dessa maneira, e tendo em vista o crescimento populacional, a renda per capita não aumentou. O Brasil passava por uma dura estagnação econômica.

Agravando o quadro socioeconômico, a distribuição da renda interna se concentrou ainda mais e a taxa de desemprego se manteve alta, num país que necessita de milhões de novos postos de trabalho anualmente só para absorver a demanda dos jovens que ingressam no mercado.

Assim, o governo FHC conheceu uma rápida perda de popularidade. Com a aproximação das eleições gerias, marcadas para outubro de 2002, partidos da base governamental procuraram se desvincular da imagem negativa do governo, o que agravou ainda mais a falta de credibilidade na administração federal.

A partir de maio de 2002, o real sofreu uma nova crise especulativa, perdendo metade do seu valor em relação ao dólar, em algumas semanas. A instabilidade política e cambial aumentaram o “risco Brasil”, acarretando uma forte retração dos investimentos externos. Enormes somas de capital foram repatriadas, agravando os balanços de pagamentos (entrada e saída de dinheiro) e diminuindo consideravelmente as reservas cambiais. A possibilidade de uma moratória afetou profundamente o mercado financeiro, com queda no movimento da Bolsa de Valores de São Paulo e desvalorização das ações negociadas.

Nem o superávit na balança comercial, previsto em 7 bilhões de dólares para 2002, favorecido pela desvalorização do real, e muito menos a conquista do campeonato mundial de futebol no Japão diminuíram o pessimismo, interno e externo, em relação ao país. Nesse quadro extremamente desfavorável, o governo FHC mais uma vez teve que apelar ao Fundo Monetário Internacional (FMI), obtendo um mega empréstimo de 30 bilhões de dólares. Para muitos, além de ser uma solução paliativa, ela aumentou a dívida e a dependência externas.

A crise cambial e as políticas sociais postas em prática por FHC foram os principais fatores do aumento da miséria entre os brasileiros. Paradoxalmente, a luta contra a fome e a miséria havia constituído a principal bandeira do presidente em sua campanha pela reeleição em 1998.

Nessa época, os índices de desemprego atingiram níveis altíssimos. O IBGE apontou 7,6 milhões de desempregados no Brasil em 1999, mais do que triplo do final da década de 1980, quando havia 2 milhões de desempregados. Era um número melhor apenas quando comparado ao da Índia (40 milhões) e ao da Federação Russa (9,1 milhões). O quadro de fragilização dos trabalhadores também ficava evidente pela diminuição do número de greves do país: foram 2.196 em 1989 e 530 dez anos depois.

No ano 2000, foi aprovada a Lei de Responsabilidade Fiscal, qual qual foram fixados os limites de gastos e as regras para o endividamento dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, nos níveis federal, estadual e municipal.

Na educação, houve um grande aumento do número de crianças matriculadas nas escolas e uma sensível queda no analfabetismo. Na saúde, ganharam destaque o programa de combate à Aids, elogiado internacionalmente, e a queda da mortalidade infantil, de 38,4 mortes e 1994 para 28,6 mortes em 2001, para cada 1000 habitantes.

Fernando Henrique Cardoso buscou fazer o seu sucessor ao apoiar a candidatura de José Serra, um dos fundadores do PSDB e ministro da Saúde durante boa parte de seu governo. Na oposição, concorreu pela quarta vez o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, que venceu as eleições no segundo turno, com 61% dos votos.