ESCRAVIDÃO MODERNA

ESCRAVIDÃO MODERNA

 Mercado de trabalho no futuro terá jornadas (e salários) menores

               Especialistas acreditam que desigualdades tendem a aumentar.

O que será do mercado de trabalho brasileiro no futuro? Para responder a essa pergunta, é preciso levar em consideração que o país passa por duas mudanças importantes. Uma delas é global e tem repercussão local. Ela está relacionada às novas tecnologias, que devem reduzir o número de empregos na indústria e aumentar as vagas no setor de informação e serviços. No Brasil, essa mudança no mercado de trabalho ocorre ao mesmo tempo em que o país passa por uma recessão na qual a importância da indústria no PIB nacional diminui. A outra mudança é a reforma trabalhista, também uma discussão global.             

Resultado de imagem para profissionais hibridos   Resultado de imagem para profissionais hibridos       

 

Foi sobre esses pontos que discorreu Marcio Pochmann, economista, professor titular da Unicamp e presidente da Fundação Perseu Abramo, durante a Conferência Ethos.  “Estamos vivendo a transição da sociedade urbana industrial para a sociedade de serviços, comunicação e informação, a sociedade pós-industrial”, afirma. “Nessa perspectiva, precisamos pensar mais no trabalho do que no emprego, que é resultado do trabalho e da forma como este se organiza”.

Segundo ele, na sociedade industrial, o trabalho tem como objetivo o rendimento, o financiamento da vida pessoal e familiar. Há também o tempo do não-trabalho, em que há autonomia para se definir o que fazer com o tempo livre. É o momento para estudo e convivência. Essa separação nasceu na sociedade industrial, e foi ela que trouxe a ideia de que na infância e na juventude não se trabalha e que criou o conceito de aposentadoria. “Na sociedade agrária, não havia essa separação. Crianças pequenas ajudavam no trabalho fora e dentro de casa, e praticamente trabalhavam até morrer. Não havia sistema de aposentadoria”, diz Pochmann.

         Hoje em países de primeiro mundo -   Fazenda robotizada

Imagem relacionada

Estratégia, Desenvolvimento, Educação, Iniciativa.

Resultado de imagem para robos trabalhando na linha de producao de fabricas

Resultado de imagem para robos trabalhando na linha de producao de fabricas

            ROBÔ INDUSTRIAL

Mas a sociedade em construção hoje está rompendo a noção de tempo de trabalho para sobrevivência e tempo livre não voltado à sobrevivência. “Essa separação começa a ficar borrada pela presença das tecnologias de comunicação e informação”. Se na sociedade industrial o trabalho era fortemente ligado a um local (fábrica ou escritório), atualmente, ele pode ser exercido em qualquer lugar.

Resultado de imagem para robos trabalhando na linha de producao de fabricas  Resultado de imagem para trabalho em casa

“Estamos vendo a desconstituição da sociedade salarial que a gente conhecia e a expansão do emprego autônomo. Com isso, teremos uma sociedade diferente daquela que foi a sociedade urbana industrial”, diz o economista. Porém, há uma carência de regulamentação, e a regulação que existe é fruto de um mundo que está se encerrando e pouco conectada com a nova realidade.

Ocupações precárias e com rendimentos muito baixos

Soma-se a isso o fato de o trabalho hoje se concentrar no setor de serviços, em que há uma “generalização de ocupações precárias e com rendimentos muito baixos”. Atualmente, cerca de quatro quintos das ocupações no Brasil estão no setor de serviços. “Estamos saindo de uma recessão brutal que destruiu muitos postos de trabalho na indústria, que deve sair da crise com o peso [no PIB] comparável a 1910”, afirma Pochmann.

Imagem relacionada    Imagem relacionada

Ao mesmo tempo, houve uma mudança importante na própria forma de contratação, com a aprovação da reforma trabalhista. “A saída da recessão depende do setor de serviços e da expansão dos postos de trabalho, mas isso vai se apoiar em uma legislação que permite contratos a tempo parcial, o que significará um mundo de trabalho diferente”.

 

 Segundo o economista, como consequência dessas mudanças, teremos um nível de desemprego muito baixo, mas com remuneração menor. Afinal, “os empregos de trabalho pleno, de oito horas por dia, podem ser substituídos por dois ou três contratados com menor jornada de trabalho”, explica Pochmann. Se uma pessoa trabalha três ou quatro horas em uma semana, ela sai da condição de desempregado, mas o salário dela provavelmente será menor. “No México, por exemplo, o desemprego é baixo, mas quem está empregado nem sempre tem renda para sair da situação de miséria”, diz o professor. Segundo ele, nesse novo cenário, a desigualdade tende a aumentar. “Já estamos vendo um aumento da desigualdade sobretudo nos países ricos”, lembra.

Imagem relacionada

 

Resultado de imagem para desigualdade em paises ricos 

 

Educação

Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, relaciona esse mundo do trabalho em transformação, descrito por Pochmann, e a educação no Brasil. “Esse novo mercado de trabalho busca competências que não são específicas, como a capacidade de resolver problemas, mas no Brasil não estamos sequer perto do que seria razoável no campo cognitivo”, diz Henriques. “Vários jovens não chegam ao ensino médio, muitos abandonam antes de concluir. Entre os que concluem, poucos aprendem, e os que aprendem aprendem pouco do que é essencial para o mercado de trabalho”, afirma.

Ele comparou a escolaridade do Brasil e do Chile. Se no nosso vizinho sulamericano 87% dos estudantes concluem o ensino médio com no máximo um ano de defasagem, esse porcentual no Brasil chega a 54%. “Aqui, a cada 100 jovens que entram no ensino médio, apenas 65 deles o concluem, e só sete vão para a universidade”. No Chile, os jovens adultos nascidos nos anos 80 têm em média mais de 12 anos de escolaridade, enquanto seus pares no Brasil têm nove — o mesmo que a média dos pais desses jovens adultos chilenos.

Resultado de imagem para ensino médio

Em competências específicas, 77% dos alunos saem do ensino médio sem os conhecimentos esperados em língua portuguesa, e 97% deles não aprenderam o que era esperado em matemática. Segundo Ricardo Henriques, esses dados sobre a educação no Brasil se refletem no mercado de trabalho, diminuindo as chances de um jovem encontrar emprego. “Estamos entrando no século 21 com uma mudança intensa nas profissões. Em 15 anos, mais da metade delas vai mudar, demandando profissionais com capacidade de elaboração de soluções e raciocínio crítico, mas nossos jovens não estão sendo preparados para essa realidade.”

 

Tendências e profissões- LEANDRO HERRERA,

Herrera destaca que existem "macrotendências" quando se trata de carreira. São as mudanças que estão revolucionando o mercado de trabalho. Uma delas é a extrema longevidade: a expectativa de vida está aumentando muito. "Vamos viver até os 100 anos, ótimo, mas isso muda a natureza do trabalho."

Escritório vazio (Foto: Ian Gavan/Getty Images)

Outra macrotendência é ascensão de máquinas e sistemas inteligentes. Ou seja, cada vez mais a tecnologia passa a desempenhar as funções hoje realizadas por humanos. Há também um "novo ecossistema de mídias". A forma como nos comunicamos tem mudado e o mundo está hiperconectado.

 

Diante desse cenário, existem competências que todo o profissional deveria ter daqui a diante, segundo ele:

Transdisciplinaridade: o uso de conhecimentos de várias áreas ao mesmo tempo

Gestão de carga cognitiva: recebemos muitas informações de todos os lados simultaneamente, e precisamos pensar na melhor maneira de absorver tudo isso

Inteligência social: a importância dessa habilidade não vem de hoje, mas há agora uma pressão maior sobre nossas qualidades sociais (saber lidar com o próximo, sobretudo)

Proficiência em novas mídias: "se nós estamos olhando para o futuro, precisamos entender os novos padrões de linguagem", diz Herrera

Colaboração virtual: sim, aquelas conversas de Skype contam. Mas agora precisamos dar mais valor e nos sentirmos mais familiarizados com essas relações remotas

Pensamento adaptativo: temos de criar coisas novas diante de novas realidades

Algumas das profissões que devem se destacar são aquelas que mesclam negócios e tecnologia, afirma Herrera.

"É o que chamamos de profissionais híbridos." 

Quer exemplos? 

Cientistas de dados, UX designers, desenvolvedores mobile, growth marketers, digital product manager e desenvolvedores de web.

 

Já começou a se preparar?

Baixa empregabilidade, altas exigências do mercado e poucas oportunidades de projeção, demonstram a necessidade de reinventar-se e destacar se em meio à multidão.

 Atualizar-se não é mais uma vantagem, mas uma necessidade.

O diferencial frente ao mercado deve ser atrativo e diversificado, com opções que sobrepujam as qualificações de formação, realizações profissionais e área de atuação. Surge a necessidade do profissional híbrido.

Resultado de imagem para profissional hibrido

Sendo o híbrido o resultado da união de duas diferentes espécies, no caso da carreira teremos um profissional heterogêneo, complexo, especialista em uma área, mas que domina várias outras, correlatas ou não.

Para que isso seja possível, algumas das competências necessárias a esse profissional são:

  • Excelente redação;
  • Grande capacidade de comunicação;
  • Domínio de novas tecnologias;
  • Conhecimento amplo da área de vendas;
  • Visão abrangente da área de negócios;
  • Capacidade de analisar e compreender diferentes comportamentos.