Nosso interesse, nosso problema

Nosso tempo climático quente e com chuva e sol, ambiente confortável para os mosquitos.

Vamos nos preocupar com nossa limpeza e higienização, não só pela pandemia como também  porque  precisamos nos preparar para não entrar em outra epidemia.

Uma população em pânico é uma população vulnerável e, principalmente, controlável.

As arboviroses (doenças transmitidas por insetos) - dengue, chikungunya e zika - tornaram-se oportunidades de negócio em um sistema de saúde em que a doença tornou-se um foco e o vetor, criam se políticas abusivas que nada ajuda no combate a doença.

As ciências humanas e sociais podem contribuir para uma reflexão mais crítica e histórica do problema. Se olharmos para a história das ações e políticas de prevenção e controle dessas doenças no mundo e no Brasil, veremos uma postura bem mais complexa do que o simples 'combate' ao mosquito.

Seja na medicina tropical ou na saúde global, sabe se que as doenças são também socialmente construídas e determinadas. Elas estão presentes, essencialmente, na forma como vivemos e no tipo de sociedade que construímos.

As arboviroses ( doenças transmitidas por insetos) também estão na forma como consumimos, descartamos nosso lixo e desperdiçamos (ou estocamos) nossa água. Na dificuldade de gestão das grandes cidades e aglomerações cada vez mais claustrofóbicas e nos modelos de saneamento e distribuição desigual da água. Nas relações de exploração do trabalho alheio, base da sociedade capitalista e do atual padrão de desenvolvimento.

Vemos nossos trabalhadores vivendo em condições sanitárias precárias nas periferias, observamos as especulações imobiliárias e no lobby das empreiteiras que financiam campanhas eleitorais com o maior desdenho sobre o ser humano.

Quando desconhecemos a políticas de vida e de saúde de uma sociedade, sua natureza, seu ambiente e as consequências ecológicas da dinâmica de transmissão das doenças, ficamos vulneráveis.

Olhar para isso é muito difícil do que simplesmente eleger um MOSQUITO. Porque põe em xeque todo um modo de vida que não estamos dispostos a questionar, nem sequer a olhar. Dessa forma, no que estamos realmente mirando nosso futuro?

Não adianta  levantarem somente questões técnicas ou biomédicas sobre o que são, de fato, os problemas sociais e políticos.

A produção social das doenças é também uma questão de escolha, social e política, e envolve relações de poder explícitas e implícitas. Se não refletirmos sobre a causa por trás desses fenômenos, eles continuarão a se repetir, como têm feito ao longo da história da saúde pública no Brasil e no mundo.

Torna-se fundamental encararmos nossos problemas que vem gerando as endemias e atuais epidemias. Assim, não se trata apenas de eliminar doenças e combater um mosquito, mas de compreender os processos mais gerais que contribuem para que a situação continue do jeito que está.

È um problema social, pessoas vivem há décadas em precárias condições de saúde e de vida.? 

Devemos compreender que dengue, chikungunya e zika são fenômenos coletivos, portanto o problema está, em nós mesmos, na forma como vivemos, adoecemos, trabalhamos, consumimos, enfim...

Saiba mais, pesquise, informe se.

* Denise Nacif Pimenta, pesquisadora da Fiocruz Minas. O artigo foi originalmente publicado na edição 336 da revista Ciência Hoje. 

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