GRIPE ESPANHOLA

16/06/2020

A gripe espanhola, também conhecida como gripe de 1918, foi uma vasta e mortal pandemia do vírus influenza. De janeiro de 1918 a dezembro de 1920, infectou uma estimativa de 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época. Estima-se que o número de mortos esteja entre 17 milhões e 50 milhões, e possivelmente até 100 milhões, tornando-a uma das epidemias mais mortais da história da humanidade. A gripe espanhola foi a primeira de duas pandemias causadas pelo influenzavirus H1N1, sendo a segunda ocorrida em 2009.

Para manter o ânimo, os censores da Primeira Guerra Mundial minimizaram os primeiros relatos de doenças e sua mortalidade na Alemanha, Reino Unido, França e Estados Unidos. Os artigos eram livres para relatar os efeitos da pandemia na Espanha, que se manteve neutra, como a grave enfermidade que acometeu o rei Afonso XIII. Tais artigos criaram a falsa impressão que a Espanha estava sendo especialmente atingida. Consequentemente, a pandemia se tornou conhecida como "gripe espanhola." Os dados históricos e epidemiológicos são inadequados para identificar com segurança a origem geográfica da pandemia, com diferentes pontos de vista sobre sua origem.

A maioria dos surtos de gripe mata desproporcionalmente os mais jovens e os mais velhos, com uma taxa de sobrevivência mais alta entre os dois, mas a pandemia de gripe espanhola resultou em uma taxa de mortalidade acima do esperado para adultos jovens. Os cientistas ofereceram várias explicações possíveis para esta alta taxa de mortalidade de 2 a 3%. Algumas análises mostraram que o vírus foi particularmente mortal por desencadear uma tempestade de citocinas, que destrói o sistema imunológico mais forte de adultos jovens. Por outro lado, uma análise de 2007 de revistas médicas do período da pandemia descobriu que a infecção viral não era mais agressiva que as estirpes anteriores de influenza. Em vez disso, asseveraram que a desnutrição, falta de higiene e os acampamentos médicos e hospitais superlotados promoveram uma superinfecção bacteriana, responsável pela alta mortalidade.

Durante a Primeira Guerra Mundial, os países aliados frequentemente chamaram a pandemia de "gripe espanhola." Isso ocorreu principalmente pois a pandemia recebeu maior atenção da imprensa na Espanha do que no resto do mundo, uma vez que o país não estava envolvido na guerra e não havia censura. Na Espanha, recebeu o nome de "gripe francesa." Em Portugal é mais conhecida como "gripe pneumónica" ou simplesmente "a pneumónica". A Espanha teve um dos piores surtos iniciais da doença, e autoridades de saúde do país buscaram chamar a pandemia de "apenas gripe" ou "a gripe", de modo a evitar o pânico entre a população. Outrossim, embora os cientistas não saibam ao certo a origem da pandemia , é improvável que tenha iniciado na Espanha.

Hipóteses sobre a origem

Reino Unido

Soldados britânicos em Étaples, França, em fevereiro de 1915.

As tropas britânicas e o acampamento hospitalar em Étaples, na França, foram teorizados por pesquisadores como estando no centro da gripe espanhola. A pesquisa foi publicada em 1999 por uma equipe britânica liderada pelo virologista John Oxford. No final de 1917, militares patologistas relataram o aparecimento de uma nova doença com alta mortalidade que mais tarde reconheceram como gripe. O acampamento e o hospital superlotados eram o local ideal para a propagação de um vírus respiratório. O hospital tratou milhares de vítimas de ataques químicos e outras causalidades, e 100.000 soldados atravessavam o acampamento todos os dias.

O local utilizado pelos britânicos em Étaples também era o lar de uma pocilga, e as aves eram trazidas das aldeias vizinhas de forma regular para serem utilizadas como suprimentos. Oxford e sua equipe postularam que um vírus precursor significativo, alojado em pássaros, sofreu mutação e depois migrou para porcos mantidos perto da frente.Em 2016, um relatório publicado no Jornal da Associação Médica Chinesa encontrou evidências de que o vírus de 1918 circulava nos exércitos europeus por meses e possivelmente anos antes da pandemia de 1918.

Estados Unidos

Houve alegações de que a pandemia se originou nos Estados Unidos. O historiador Alfred W. Crosby afirmou em 2003 que a gripe se originou no Kansas,[30] e o popular autor John Barry descreveu o Condado de Haskell, Kansas, como o ponto de origem em um artigo em 2004.[16] Também foi declarado pelo historiador Santiago Mata em 2017 que, no final de 1917, já havia uma primeira onda da epidemia em pelo menos 14 campos militares dos Estados Unidos.

Um estudo de 2018 com lâminas de tecido e relatórios médicos liderado pelo professor de biologia evolutiva Michael Worobey encontrou evidências contrárias à hipótese da doença ter se originado no Kansas, pois os casos no local eram mais leves e ocorreram menos mortes em comparação com a situação na cidade de Nova Iorque no mesmo período. O estudo encontrou evidências através de análises filogenéticas de que o vírus provavelmente tinha uma origem norte-americana, embora não fosse conclusivo. Ademais, as glicoproteínas da hemaglutinina do vírus sugerem que isso ocorreu muito antes de 1918 e outros estudos sugerem que o rearranjo do vírus H1N1 provavelmente ocorreu em ou por volta de 1915.

China

Uma das poucas regiões do mundo aparentemente menos afetadas pela pandemia da gripe espanhola de 1918 foi a China, onde pode ter ocorrido uma temporada de gripe relativamente leve em 1918, ainda que isso seja contestado devido à falta de dados na Era dos Senhores da Guerra. Vários estudos documentaram que houve relativamente poucas mortes por gripe na China em comparação com outras regiões do mundo. Tal fato levou à especulação de que a pandemia de 1918 se originou na China. A estação de gripe relativamente leve e as taxas mais baixas de mortalidade por gripe no país em 1918 podem ser explicadas pelo fato de que a população chinesa já possuía imunidade adquirida ao vírus da gripe. No entanto, um estudo de K.F. Cheng e P.C. Leung em 2006 sugeriu que tais resultados eram mais prováveis pois a medicina tradicional chinesa desempenhava um papel importante na prevenção e tratamento.

Em 1993, Claude Hannoun, o principal especialista em gripe espanhola do Instituto Pasteur, afirmou que o antigo vírus provavelmente veio da China. Em seguida, sofreu uma mutação nos Estados Unidos, perto de Boston, e de lá se espalhou para Brest (França), campos de batalha da Europa, Europa e o mundo, sendo os soldados e marinheiros aliados como os principais disseminadores. Hannoun considerou várias outras hipóteses sobre a origem, indicando a Espanha, Kansas e Brest como possíveis, mas não prováveis. O cientista político Andrew Price-Smith publicou dados dos arquivos austríacos sugerindo que a gripe tinha origens anteriores, com início na Áustria no início de 1917.

Em 2014, o historiador Mark Humphries argumentou que a mobilização de 96.000 trabalhadores chineses para atuarem atrás das linhas britânica e francesa pode ter sido a fonte da pandemia. Humphries, da Universidade Memorial da Terra Nova em São João da Terra Nova, baseou suas conclusões em registros recém descobertos. O historiador encontrou evidências de que uma doença respiratória que atingiu o norte da China em novembro de 1917 foi identificada um ano depois pelas autoridades de saúde chinesas como idêntica à gripe espanhola.

Um relatório publicado em 2016 no Jornal da Associação Médica Chinesa não encontrou evidências de que o vírus de 1918 foi importado para a Europa por soldados e trabalhadores chineses ou do Sudeste Asiático e, em vez disso, encontrou evidências de sua circulação na Europa antes da pandemia. O estudo sugeriu que a baixa taxa de mortalidade por gripe (estimada em 1 em 1000) encontrada entre os trabalhadores chineses e do sudeste asiático na Europa significava que a pandemia mortal de influenza de 1918 não poderia ter se originado desses trabalhadores.

Um estudo de 2018 com lâminas de tecidos e relatórios médicos liderados pelo professor de biologia evolutiva Michael Worobey encontrou evidências contra a hipótese da doença ter sido disseminada por trabalhadores chineses, observando que tais pessoas entraram na Europa por outras rotas que não resultaram em propagação detectável, tornando improvável que eles fossem os hospedeiros originais.

Propagação

À medida que as tropas norte-americanas se mobilizavam em massa para o esforço de guerra na Europa, elas levavam consigo a gripe espanhola.

Quando uma pessoa infectada espirra ou tosse, mais de meio milhão de partículas do vírus podem se espalhar para as pessoas próximas. Os locais próximos e as mudanças maciças de tropas durante a Primeira Guerra Mundial aceleraram a pandemia e provavelmente aumentaram a transmissão e as mutações. A guerra também pode ter aumentado a letalidade do vírus: alguns especulam que o sistema imunológico dos soldados foi enfraquecido pela desnutrição, bem como pelo estresse dos combates e ataques químicos, aumentando sua suscetibilidade. Ademais, um grande fator na ocorrência mundial da gripe foi o aumento do número de viagens. Os modernos sistemas de transporte facilitaram a disseminação da doença por soldados, marinheiros e viajantes civis.

TRÊS ONDAS MORTAIS

De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças, a gripe espanhola teve três ondas:

A primeira onda foi considerada mais branda, tendo sido detectada em março de 1918 no Kansas, Estados Unidos, num campo de treinamento de tropas destinadas ao front da Primeira Guerra.

A segunda onda aconteceu quando, depois de percorrer os continentes, retornou aos Estados Unidos em agosto, matando milhões, transformada "em algo monstruoso, parecendo-se muito pouco com o que é comumente considerado gripe", com uma taxa de letalidade de 6% a 8%.

A terceira onda foi mais moderada e aconteceu no início de 1919, de fevereiro a maio daquele ano. No entanto, "nada - nem infecção, nem guerra, nem fome - jamais tinha matado tantos em tão pouco tempo."

Mortalidade

Ao redor do globo

Gráfico indicando a diferença entre os índices de mortalidade pela gripe de 1918 e epidemias normais de acordo com a idade.

As estimativas variam quanto ao número total de pessoas que morreram vitimadas pela gripe espanhola. Uma estimativa de 1991 alega que a pandemia matou entre 25 a 39 milhões de pessoas. Uma estimativa de 2005 reportou o número de mortos em provavelmente 50 milhões (menos de 3% da população global) e possivelmente tão alto quanto 100 milhões (mais de 5%). Uma reavaliação em 2018 estimou o total em cerca de 17 milhões, embora isso tenha sido contestado. Com uma população mundial de 1,8 a 1,9 bilhão, tais estimativas correspondem a entre 1% e 6% da população.

A gripe espanhola matou mais pessoas em 24 semanas do que o Vírus da imunodeficiência humana (HIV) e a Síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) mataram em 24 anos.A Peste Negra, que durou muito mais tempo, matou uma porcentagem muito maior da população mundial.

A pandemia causou mortes em todas as regiões do globo. Entre 12 e 17 milhões de pessoas morreram na Índia, cerca de 5% da população. O número de mortos nos distritos britânicos da Índia foi de 13,88 milhões. Arnold (2019) estima pelo menos 12 milhões de mortos.

Estimativa de mortes ocasionadas
pela gripe espanhola em alguns países
País Mortes Fontes

Índia 12-17 milhões

China 1-1,28 milhões

Estados Unidos 500-675.000

Alemanha 400.000

França 400.000

Japão 390.000

Brasil 35.000-300.000

Reino Unido 250.000

Portugal 120.000

O enorme número de mortes foi o resultado de uma taxa de infecção extremamente alta de até 50% e da extrema gravidade dos sintomas, suspeitos de serem causados por tempestade de citocinas.

Os sintomas da gripe espanhola eram incomuns, inicialmente causando um diagnóstico incorreto de gripe como sendo dengue, cólera ou febre tifóide. Um observador escreveu: "Uma das complicações mais impressionantes foi a hemorragia das mucosas, principalmente do nariz, estômago e intestino. Também ocorreu sangramento nos ouvidos e hemorragias petéquias na pele." A maioria das mortes foi ocasionada pela pneumonia bacteriana, uma infecção secundária comum associada à gripe. O vírus também matou pessoas diretamente, causando hemorragias e edema nos pulmões.

Padrões de incidência

A pandemia matou principalmente adultos jovens. Em 1918-1919, 99% das mortes por influenza pandêmica nos Estados Unidos ocorreram em pessoas com menos de 65 anos e quase metade dos falecidos eram adultos jovens de 20 a 40 anos. Em 1920, a taxa de mortalidade entre pessoas com menos de 65 anos havia diminuído em relação a pessoas com mais de 65 anos, mas 92% das mortes ainda ocorreram em pessoas com menos de 65 anos. A ocorrência era incomum, uma vez que a gripe normalmente é mais fatal para indivíduos fracos, como crianças com menos de dois anos de idade, adultos com mais de 70 anos e imunodeficientes. Em 1918, os idosos podiam ter contado com proteção parcial causada pela exposição à pandemia de gripe de 1889 a 1890, conhecida como "gripe russa".

Em casos de rápido progresso da gripe, a mortalidade foi principalmente gerada pela pneumonia, por consolidação pulmonar induzida por vírus. Casos de menor evolução apresentaram pneumonia bacteriana secundária e, possivelmente, envolvimento neural que levou a distúrbios mentais em alguns casos. Algumas mortes ocorreram por conta da desnutrição.

A análise moderna indicou que o vírus foi particularmente mortal por desencadear uma tempestade de citocinas (reação exagerada do sistema imunológico do corpo), que destrói o sistema imunológico mais forte dos adultos jovens. Um grupo de pesquisadores recuperou o vírus dos corpos de vítimas congeladas e transfectou animais com ele. Os animais sofreram rapidamente de forma progressiva insuficiência respiratória e morreram por tempestade de citocinas. Postulou-se que as fortes reações imunes de adultos jovens haviam devastado seus corpos, enquanto que as reações imunológicas mais fracas de crianças e adultos de meia idade resultaram em menos mortes entre esses grupos.

Um estudo de 2013 utilizou um modelo epidêmico simples, incorporando três fatores para inferir a causa das três ondas da pandemia. Esses fatores foram abertura e fechamento de escolas, mudanças de temperatura durante o surto e mudanças comportamentais humanas em resposta a este. As conclusões mostraram que todos os três fatores foram importantes, mas as respostas comportamentais humanas representaram os efeitos mais significativos.

Segunda onda pandêmica mortal

Soldado utilizando máscara enquanto regula o tráfego viário em Nova Iorque, em outubro de 1918.

A segunda onda da pandemia de 1918 foi muito mais mortífera que a primeira. A primeira onda se assemelhava às epidemias típicas de gripe; os que estavam em maior risco eram os doentes e os idosos, enquanto que as pessoas mais jovens e saudáveis se recuperavam facilmente. Em agosto, quando a segunda onda começou na França, Serra Leoa e Estados Unidos, o vírus havia se transformado em uma forma muito mais mortal. Outubro de 1918 foi o mês mais mortal de toda a pandemia, ocasionando 195.000 mortes só nos Estados Unidos.

A segunda onda começou e a gripe rapidamente se espalhou pelo mundo novamente. Consequentemente, durante as pandemias modernas, as autoridades de saúde prestam atenção quando o vírus chega a lugares com convulsões sociais.

O fato de a maioria das pessoas que se recuperaram de infecções da primeira onda terem se tornado imunes revelou que a estirpe da gripe espanhola deve ter sido a mesma da gripe comum. Isso foi ilustrado de maneira mais dramática em Copenhague, que obteve uma taxa de mortalidade combinada de apenas 0,29% (0,02% na primeira onda e 0,27% na segunda onda) devido a exposição à primeira onda menos letal. Para o resto da população, a segunda onda foi muito mais mortal; as pessoas mais vulneráveis eram aquelas como os soldados nas trincheiras - adultos jovens e em boa forma.

Comunidades devastadas

Gráfico mostrando o número de mortos em Berlin, Londres, Nova Iorque e Paris.

Mesmo em áreas onde a mortalidade foi baixa, tantos adultos estavam incapacitados que grande parte da vida cotidiana era prejudicada. Algumas comunidades fecharam todas as lojas ou exigiram que os clientes deixassem seus pedidos do lado de fora. Houve relatos de que os profissionais de saúde não podiam cuidar dos doentes, nem os coveiros enterrar os mortos pois eles também estavam doentes. Sepulturas em massa foram cavadas e os corpos enterrados sem caixões em muitos lugares.

Vários territórios do Pacífico foram particularmente atingidos com força. A pandemia chegou da Nova Zelândia, que foi muito lenta para implementar medidas para impedir que navios transportassem a gripe ao deixar seus portos. Da Nova Zelândia, a gripe atingiu Tonga (matando 8% da população), Nauru (16%) e Fiji (5%, 9.000 pessoas).[114] Na Nova Zelândia, 8.573 mortes foram atribuídas à gripe pandêmica de 1918, resultando em uma taxa de mortalidade total da população de 0,7%. Os maoris tinham dez vezes mais chances de morrer do que os europeus, por causa de sua habitação e população rural mais pobres e mais lotadas.

A Samoa Ocidental foi a mais afetada, anteriormente Samoa Alemã, que havia sido ocupada pela Nova Zelândia em 1914. Lá, 90% da população foi infectada; 30% dos homens adultos, 22% das mulheres adultas e 10% das crianças morreram. O governador da Samoa Americana, John Martin Poyer, impediu que a gripe chegasse ao território ao impor um bloqueio. A doença se espalhou mais rapidamente através das classes sociais mais altas entre os povos indígenas graças ao costume dos chefes de recorrerem a tradição oral em seus leitos de morte; muitos idosos foram infectados por esse processo.

Mulheres usam máscaras em Tóquio, em 1919.

Autoridades britânicas em Hong Kong e Cantão relataram uma taxa de mortalidade de 0,25% e 0,32%, muito inferior ao relatado em outras cidades da Ásia, como Calcutá ou Bombaim, onde a pandemia foi muito mais devastadora. Na cidade de Xangai, à época com 2 milhões de habitantes, houve apenas 266 mortes registradas por influenza entre a população chinesa em 1918. No mais, a taxa de mortalidade sugerida na China como um todo em 1918 provavelmente era menor que 1% - muito menor que a média mundial, de cerca de 3-5%.

Por outro lado, Japão e Taiwan relataram uma taxa de mortalidade por influenza em torno de 0,45% e 0,69%, respectivamente, superior à taxa de mortalidade coletada em cidades portuárias chinesas, como Hong Kong (0,25%), Cantão (0,32%) e Xangai. Alguns pesquisadores alegaram que a medicina tradicional chinesa pode ter desempenhado um papel na baixa taxa de mortalidade por influenza na China.

Intoxicação por aspirina

Em um artigo de 2009 publicado na revista Clinical Infectious Diseases, Karen Starko sugeriu que o envenenamento por aspirina contribuiu substancialmente para as fatalidades relacionadas à gripe espanhola. Starko baseou tal alegação nos sintomas relatados por aqueles que morreram de gripe, de acordo com o informado pelos relatórios post mortem disponíveis, e também no momento do grande "pico da morte" em outubro de 1918. O pico ocorreu logo após oficiais dos Estados Unidos e o Jornal da Associação Médica Americana recomendarem doses muito grandes, de 8 a 31 gramas, de aspirina por dia como parte do tratamento. Esses níveis produzem hiperventilação em 33% dos pacientes, além de edema pulmonar em 3% dos pacientes.

Starko observou ainda que no início da pandemia muitos pulmões de pessoas que haviam morrido estavam "úmidos", às vezes hemorrágicos, enquanto que os pulmões de pessoas que morreram posteriormente acusaram a existência de pneumonia bacteriana. Starko sugeriu que a onda de envenenamento por aspirina ocorreu devido a uma "tempestade perfeita" de eventos: a patente da Bayer sobre aspirina expirou; muitas empresas correram para obter lucros e aumentaram bastante a oferta; este momento coincidiu com a gripe espanhola; e os sintomas do envenenamento por aspirina não eram conhecidos na época.

Um condutor em Seattle se recusando a permitir que um passageiro que não estava usando máscaras entrasse no bonde, em 1918.

Como explicação para a taxa de mortalidade universalmente alta, a hipótese levantada por Starko foi questionada em uma carta publicada em abril de 2010 por Andrew Noymer e Daisy Carreon, da Universidade da Califórnia em Irvine, e Niall Johnson, da Comissão Australiana de Segurança e Qualidade em Cuidados de Saúde. Eles questionaram a aplicabilidade universal da teoria relacionada a aspirina, dada a alta taxa de mortalidade em países como a Índia, onde havia pouco ou nenhum acesso à aspirina na época, em comparação com a taxa de mortalidade em locais onde a aspirina era abundante.

Fim da pandemia

Depois que a segunda onda letal ocorreu no final de 1918, novos casos caíram abruptamente - quase nenhum depois do pico da segunda onda. Na Filadélfia, Pensilvânia, por exemplo, 4.597 pessoas morreram na semana que terminou em 16 de outubro, mas em 11 de novembro a gripe quase desapareceu na cidade. Uma explicação para o rápido declínio da letalidade da doença é que os médicos se tornaram mais eficazes na prevenção e tratamento da pneumonia que se desenvolveu após as vítimas terem contraído o vírus. No entanto, John Barry afirmou em seu livro The Great Influenza: The Epic Story of the Deadliest Plague In History, publicado em 2004, que os pesquisadores não encontraram evidências para apoiar essa posição.

Outra teoria sustenta que o vírus sofreu uma mutação extremamente rápida para uma estirpe menos letal. Essa é uma ocorrência comum com os vírus influenza: existe uma tendência de os vírus patogênicos se tornarem menos letais com o tempo, pois os hospedeiros de estirpes mais perigosas tendem a morrer.

Efeitos a longo prazo

Um estudo de 2006 do Journal of Political Economy descobriu que as coortes in utero durante a pandemia apresentaram desempenho educacional reduzido, aumento dos índices de incapacidade física, menor renda e menor nível socioeconômico em comparação com outras coortes. Um estudo de 2018 descobriu que a pandemia reduziu a escolaridade das populações. Ademais, a pandemia foi associada ao surto de encefalite letárgica na década de 1920.

Legado

Enfermeiros da Cruz Vermelha cuidando de pacientes infectados pelo vírus influenza em Oakland, Califórnia, em 1918.

O acadêmico Andrew Price-Smith argumentou que o vírus ajudou a reduzir o equilíbrio de poder nos últimos dias da guerra em favor dos países aliados. Price-Smith forneceu dados de que as ondas virais atingiram as potências centrais antes dos países aliados e que tanto a morbidade quanto a mortalidade na Alemanha e na Áustria eram consideravelmente mais altas do que na França e no Reino Unido.

Apesar das altas taxas de morbidade e mortalidade geradas pela pandemia, a gripe espanhola começou a desaparecer da conscientização do público ao longo das décadas seguintes até a chegada de notícias sobre a gripe aviária e outras pandemias nos anos 1990 e 2000. Consequentemente, alguns historiadores rotularam a gripe espanhola de "pandemia esquecida."

Existem várias teorias sobre o por quê a gripe espanhola foi "esquecida." O ritmo acelerado da pandemia que, por exemplo, matou a maioria de suas vítimas nos Estados Unidos em menos de nove meses, resultou em uma cobertura limitada da mídia. A população em geral estava familiarizada com os padrões de doenças pandêmicas no final do século XIX e início do século XX: febre tifóide, febre amarela, difteria e cólera ocorriam quase ao mesmo tempo. Tais surtos provavelmente diminuíram o significado da pandemia de influenza para o público. Em algumas áreas, a gripe não foi relatada, sendo a única menção os anúncios de medicamentos que alegavam curá-la.

Pesquisas

Uma micrografia eletrônica mostrando os vírions da influenza de 1918 recriados.

A origem da pandemia de gripe espanhola e a relação entre surtos quase simultâneos em humanos e suínos têm sido controversas. Uma hipótese é que a estirpe do vírus se originou em Fort Riley, Kansas, em vírus de aves e suínos criados para serem utilizados como alimentos; os soldados foram enviados para o redor do mundo, onde espalharam a doença. As semelhanças entre a reconstrução do vírus e os vírus aviários, combinadas com a pandemia humana anterior aos primeiros relatos de influenza em suínos, levaram os pesquisadores a concluir que o vírus da influenza saltou diretamente das aves para os seres humanos, e os suínos o contraíram dos seres humanos.

Outros discordaram, e pesquisas mais recentes sugeriram que a estirpe pode ter se originado em uma espécie de mamífero não humana. Uma data estimada para sua aparição em hospedeiros mamíferos foi sugerida como sendo durante o período de 1882 a 1913. Esse vírus ancestral separou-se por volta de 1913 a 1915 em dois ramos (ou grupos biológicos), que deram origem às linhagens clássicas de gripe suína e humana, a H1N1. O último ancestral comum das estirpes humanas data de fevereiro de 1917 a abril de 1918. Como os porcos são mais facilmente infectados pelo vírus da influenza aviária do que os seres humanos, eles foram sugeridos como sendo os receptores originais do vírus, passando então o vírus para os seres humanos em algum momento entre 1913 e 1918.

Terrence Tumpey examinando uma versão reconstruída da gripe espanhola.

Um esforço para recriar a estirpe da gripe de 1918 (um subtipo da estirpe aviária H1N1) foi realizado em colaboração entre o Instituto de Patologia das Forças Armadas, o Laboratório de Pesquisa de Aves do Sudeste e a Escola de Medicina Monte Sinai de Nova Iorque. O esforço resultou no anúncio, em 5 de outubro de 2005, de que o grupo havia determinado com sucesso a sequência genética do vírus, usando amostras históricas de tecido recuperadas pelo patologista Johan Hultin de uma vítima da gripe do sexo feminino enterrada no Alasca e amostras preservadas de soldados norte-americanos.

Em janeiro de 2007, Kobasa et al. (2007) relataram que macacos (Macaca fascicularis) infectados com a estirpe da gripe recriada exibiram sintomas clássicos da pandemia e morreram devido a tempestades de citocinas - uma reação exagerada do sistema imunológico. O resultado pode explicar o por quê a gripe espanhola teve um efeito surpreendente em pessoas mais jovens e saudáveis, pois uma pessoa com um sistema imunológico mais forte poderia ter uma reação exagerada mais forte.

Em setembro de 2008, o corpo do político e diplomata britânico Sir Mark Sykes foi exumado para sequenciar o RNA do vírus da gripe, em um esforço para entender a estrutura genética da moderna gripe aviária H5N1. Sykes havia sido enterrado em 1919 em um caixão que os cientistas esperavam ter ajudado a preservar o vírus. O caixão acabou se quebrando e o cadáver se decompôs mal; no entanto, foram coletadas amostras de tecido pulmonar e cerebral.

Em dezembro do mesmo ano, uma pesquisa do virologista Yoshihiro Kawaoka, da Universidade de Wisconsin, vinculou a presença de três genes específicos e uma nucleoproteína derivada de amostras da gripe espanhola à capacidade do vírus da gripe de invadir os pulmões e causar pneumonia. A combinação desencadeou sintomas semelhantes em testes em animais. As autópsias das vítimas revelavam em geral, pulmões cheios de líquidos gravemente danificados por uma forte hemorragia. Os cientistas concluíram que a capacidade do vírus de controlar os pulmões estava associada ao alto nível de virulência, mas os genes que conferiam essa capacidade eram desconhecidos. A descoberta desse mecanismo de ação nas infecções nos pulmões foi importante porque forneceu uma maneira de identificar rapidamente os possíveis fatores de virulência em novas cepas pandêmicas de influenza. Com a posterior descoberta do complexo genético do vírus, foi possível a criação de uma nova classe de medicamentos antivirais, como o oseltamivir, com maior rapidez que a produção de vacinas. Para mapear a cadeia genética que permitia ao vírus invadir os pulmões, os pesquisadores misturaram elementos genéticos do vírus da gripe de 1918 com os de um vírus da gripe aviária e testaram as variantes em furões, um animal que mimetiza a infecção por gripe humana. A maioria dos vírus híbridos infectou apenas as passagens nasais dos furões e não causou pneumonia. Mas um deles, que carregava os genes do RNA polimerase do vírus de 1918, conseguiu infectar os pulmões, pois o complexo permitia que o vírus fizesse o passo principal, ou seja, sintetizar suas proteínas.