DOENÇAS ERRADICADAS VOLTAM A SE MANIFESTAR NO BRASIL.

10/07/2018

Brasília,  (Agência Brasil - ABr) - 

Nessa virada de século o Brasil viu reemergir uma doença que se imaginava definitivamente erradicada em nosso território, a febre amarela. Assim como essa moléstia, outras como a dengue, a malária revelam um crescimento no número de casos que preocupa o governo e a comunidade científica do país. Como forma de discutir modelos de combate e prevenção a SBPC promoveu, durante a 52ª Reunião Anual, o simpósio "Doenças emergentes e reemergentes".

José Rodrigues Coura, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e um dos expositores, conceitua doença emergente ou reemergente como "uma infecção nova, reemergente ou resistente a drogas, cuja incidência, no homem tenha aumentado nas últimas décadas ou tenda a aumentar em futuro próximo". Na sua opinião, das doenças infecciosas em crescimento no país as mais preocupantes são a febre amarela e o dengue.

Para a febre amarela existe uma vacina preventiva, para o dengue não. Mesmo assim, a febre amarela é considerada mais perigosa pois pode ser fatal. Ambas são transmitidas pelo mosquito Aedis aegypti. "Ele está presente em todos os municípios brasileiros, aqueles que dizem que não o tem, é porque não procuraram direito", afirma o pesquisador. "São vários os fatores para o retorno de doenças que no passado já haviam sido controladas", aponta Coura. O principal, diz, é a "quebra de medidas de saúde pública".

Segundo ele, o país deixou de investir em campanhas sanitaristas de prevenção, que foi a forma de erradicação de algumas dessas doenças. Tanto a febre amarela, quanto o dengue, foram controlados no início do século com uma série de ações organizadas por Oswaldo Cruz e baseadas na eliminação dos mosquitos por meio da limpeza das cidades.
Coura cita ainda a interiorização do país, a necessidade de abertura de outras fronteiras econômicas, o desmatamento, como formas do homem entrar em contato com males que até então eram silvestres. A febre amarela é um exemplo de doença com duas formas: uma urbana, outra silvestre. A urbana foi erradicada em 1930, apareceu no Espirito Santo em 1942, mas foi contida, e, com o processo de desenvolvimento interiorano motivado na década de 70, voltou a crescer. A febre amarela silvestre sempre existiu.


É transmitida ao homem pelo mosquito Haemagogus. Quando algum desses mosquitos pica o homem, ele adquire a febre amarela silvestre. A forma urbana ocorre quando um mosquito Aedis aegypti pica um homem infectado pela febre silvestre, transmitindo a doença de uma pessoa a outra.
Marcos Boulos, pesquisador da USP participante do simpósio, compartilha com Coura da idéia de que a movimentação humana em áreas endêmicas é uma das principais formas de recrudescimento de doenças. Ele delimitou sua exposição à malária e à aids. A primeira um caso de enfermidade reemergente, e a outra, a moléstia emergente que mais preocupa o mundo.
Dados divulgados por Boulos mostram que só no ano passado foram notificados 630 mil casos de malária, representando um aumento de 30% em relação aos números do ano passado.
Até 1970, quando foram incrementadas as políticas de desenvolvimento no interior do país, a malária estava controlada, com média de 50 mil casos por ano. Segundo o pesquisador, metade da população mundial está sob o risco da doença que, só no Brasil, mata 170 pessoas por ano.
A sessão, impaludismo, tremedeira, febre terçã, febre quartã, febre palustre, febre palúdica, nomes também atribuídos à malária, é causada por um parasito chamado plasmódio, que diminui a contagem de glóbulos vermelhos no sangue, provocando anemia. A transmissão se dá por um vetor, o anofelino (mosquito-prego). A Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins) concentra 99% dos casos, sendo que só o Pará responde por 80% dos casos nacionais, informa Boulos.

A malária é outra moléstia reemergente para o qual não há vacina. As várias estratégias adotadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para o seu controle, que atingia praticamente todas as regiões do planeta, só surtiram efeito nos países desenvolvidos. No Brasil, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado tem diminuído o número de óbitos pela doença, mas essa atitude não reduziu a manifestação de outros casos.
Para Boulos, as dificuldades em se erradicar o mal estão na agilidade com que o mosquito e o parasito desenvolvem resistência às drogas antimálaricas; na constante migração de indivíduos infectados e, fundamentalmente, na falta de priorização da questão pelo governo. "Houve uma descentralização dos programas de combate à malária, entretanto, muitos dos municípios das regiões infestadas não estavam preparados para assumir mais essa atribuição", comenta.


Dos números das enfermidades em crescimento nenhum assusta mais do que os da Aids. Dados apresentado por Boulos, cuja fonte é a OMS, mostram que no ano passado, 34 milhões de pessoas portavam o vírus HIV e 2,8 milhões morreram em decorrência da infecção. A cada ano, 5,4 milhões de casos são notificados, 15 mil por dia, sendo 95% registrados na África. No Brasil, os casos notificados são 179 mil, mas a OMS estima que existem entre 450 e 600 mil pessoas vivendo com o vírus.

Como é bom lembrar, não há vacina contra a Aids, o ideal é buscar cuidados preventivos como o uso de preservativos nas relações sexuais e o não reaproveitamento de seringas descartavéis, atitudes que dificultam o contágio. Algumas vacinas estão em testes, sendo que a Alphavax, desenvolvida por norte-americanos e sul-africanos, é a que está com os estudos mais avançados. Em experimentos com macacos, revelou capacidade de proteção ao vírus.
Para Boulos é fundamental a participação das universidades nesse esforço de erradicação de doenças, por meio da produção de teses, pesquisas, manuais, mecanismos que aumentam o conhecimento sobre as doenças. "No caso do Brasil, o Ministério da Saúde sozinho não é capaz de dar soluções para o problema", garante ele. (Hebert França)

Males seculares

 DOENÇAS DE CHAGAS
Predominantemente rural, tornou-se também urbana com a migração dos lavradores para as cidades. A transmissão pelo Triatoma infestans está sob controle no país, já a pelo Trypanossoma cruzi por via oral ocorre, de maneira esporádica, por alimentos contaminados. Microepidemias têm sido relatadas na Amazônia e no Nordeste. Estima-se em 14 milhões o número de infectados na América Latina, com mais de 60 milhões de pessoas sob risco de transmissão em 18 países endêmicos.


 MALÁRIA
A introdução de inseticidas e o acesso aos antimaláricos sintéticos eliminaram a doença da Europa, da área mediterrânea da África, dos EUA, Canadá e Rússia, Américas Central, do Sul e nas Antilhas, Índia, Paquistão e sudeste da Ásia, além de áreas do Sudeste, Sul e Nordeste brasileiros. Mas sua incidência voltou a crescer e é a mais alta dos últimos 40 anos. Uma das causas é a resistência dos parasitas aos antimaláricos e dos vetores aos inseticidas. Em 2003, o Brasil tinha 407, 6 mil casos de malária.


TUBERCULOSE
A Aids coincidiu com o descaso no controle da tuberculose e o abandono ao tratamento, condições que propiciaram o surgimento do bacilo multidroga-resistente e favoreceram o surgimento de "novo agente". A doença acomete um terço da população do mundo, com 9 milhões de casos por ano e 3 milhões de óbitos. A incidência está relacionada à pobreza e à desigualdade social, gerenciamento incorreto de casos descobertos e não curados e excesso de confiança na vacina do BCG.


 HANTAVÍRUS
Detectada nos EUA em 1993, a síndrome pulmonar por hantavírus foi registrada também em outros países, como Brasil, Canadá, Venezuela, Chile e Uruguai, com taxa de letalidade de até 50%. No Brasil, a doença foi diagnosticada em novembro de 1993, no estado de São Paulo, e também casos no Sul do país, em Minas Gerais e no Mato Grosso. Desde então, mais de 320 casos já foram registrados.


 FEBRE AMARELA
O Brasil tem a maior área endêmica do planeta e desde 1942 não há registro da forma urbana da febre amarela. Em 1955, após 20 anos de campanhas, foi possível eliminar do território nacional o Aedes aegypti, principal transmissor da forma urbana da febre amarela e também da dengue. Em 1976, houve reinfestação, que se propagou por todo o país. Contribuem para o retorno baixa cobertura vacinal, migração rural-urbana e o crescimento das cidades, com parte da população vivendo sem saneamento básico.


 HEPATITES VIRAIS
O vírus da hepatite C infecta 4 milhões de pessoas, com até 10 mil mortes anuais. São 150 mil novos infectados por ano. Estima-se que o vírus da Hepatite B seja responsável por 1 milhão de mortes ao ano e haja 350 milhões portadores crônicos no mundo. Grupos com comportamentos sexuais de risco, usuários de drogas injetáveis que compartilham seringas, profissionais de saúde e pessoas submetidas à hemodiálise apresentam prevalência maior de contaminação que a população em geral.


 DENGUE
É relatada há mais de 200 anos. Na década de 50, a febre hemorrágica da dengue foi descrita, pela primeira vez, nas Filipinas e na Tailândia. Depois da década de 1960, a circulação do vírus intensificou-se nas Américas. A partir de 1963, a circulação dos sorotipos 2 e 3 em vários países foi comprovada. Em 1977, o sorotipo 1 foi introduzido nas Américas. A partir de 1980, foram notificadas as grandes epidemias. Em 2003, no Brasil, apenas Rio Grande do Sul e Santa Catarina não tiveram transmissão autóctone da doença. Este ano, é recorde: 108,4 mil pessoas infectadas apenas nos primeiros meses do ano.


 LEISHIMANIOSE
Segundo estimativas da OMS, chegam a 2 milhões os novos casos registrados no mundo a cada ano. Em regiões rurais e de anta, roedores e raposas são os principais hospedeiros da doença; no ambiente urbano, são os cães. O Brasil responde por 90% dos casos da leishmaniose na América Latina. A doença vem se tornando emergente entre os portadores do HIV. Hoje já são 20 estados brasileiros que sofrem com a doença. A incidência chega a 25 mil novos registros por ano.


Poliomielite 

Em 29 de setembro de 1994, o Brasil recebeu da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) o certificado de interrupção da transmissão dos vírus selvagens da poliomielite no Brasil, confirmando a conclusão da comissão nacional que havia anteriormente declarado o país livre desses vírus.
Esse feito foi a conclusão de uma longa luta contra a doença, que se estendeu por várias décadas, mobilizou mais de uma geração de profissionais da área da saúde em todo país e, por fim, a própria sociedade brasileira, por meio das grandes campanhas nacionais de vacinação que ainda hoje ocorrem a cada ano.  


OUTRAS DOENÇAS

"Entre as doenças já controladas no país, destaco preocupação com a poliomielite, a rubéola congênita e, como estamos vendo, o sarampo, que poderá se espalhar para outras regiões do Brasil" afirma o diretor da Divisão de Ensaios Clínicos e Farmacovigilância do Instituto Butantan, Alexander Roberto Precioso. "É preciso aumentar a cobertura vacinal da população contra essas doenças."

Desde abril de 2018, a OMS emite alerta sobre a volta do sarampo em dez países das Américas: Brasil, Argentina, Equador, Canadá, Estados Unidos, Guatemala, México, Peru, Antígua e Barbuda, Colômbia e Venezuela.

Sarampo
Sarampo

MENINGITE

Os recentes casos de Meningite ocorridos em Santa Catarina nas cidades Itajaí, Chapecó, Palhoça e Florianópolis alertam a Secretaria Municipal de Saúde.

A meningite é um processo inflamatório das membranas protetoras que envolvem o cérebro e a medula espinhal (meninges) causado por bactérias, vírus, parasitas e fungos, entre outros agentes.

Os tipos mais comuns são a Meningite Pneumocócica, causada pelo Steptococcuspneumoniae, a meningite provocada pelo Haemophilus Influenza e a doença meningocócica, pela bactéria Neisseriameningitidis, também conhecida como meningococo.

- O quadro clínico da meningite bacteriana pode se instalar em apenas algumas horas. A evolução é muito rápida e fulminante -
A rede pública de saúde oferece vacina contra as formas mais graves de meningite:

Meningite tipo C (a proteção está contida na vacina Meningo C): imunização para crianças (1ª dose aos 3 meses; 2ª dose aos 5 meses; e reforço entre 12 meses e a 4 anos 11 meses e 29 dias) e para adolescentes entre 12 e 13 anos (uma dose)

Meningite por pneumococo (a proteção está contida na vacina Pneumo 10): imunização para crianças (1ª dose aos 2 meses; 2ª dose aos 4 meses; e reforço entre 12 meses e a 4 anos 11 meses e 29 dias)

Meningite por Haemophilus influenza (a proteção está contida na vacina Pentavalente): imunização para crianças (1ª dose aos 2 meses; 2ª dose aos 4 meses; e 6ª dose aos 6 meses).

Meningite tuberculosa (a vacina BCG protege contra a meningite tuberculosa): imunização para crianças ao nascer.

Manter todos os ambientes bem ventilados, se possível ensolarados, principalmente salas de aula, locais de trabalho e no transporte coletivo

Evitar transitar em ambientes fechados e mal ventilados

Lavar as mãos frequentemente com água e sabão

Não compartilhar utensílios de uso pessoal

Sintomas

Os sintomas de meningite incluem febre de início repentino, associada à dor de cabeça, dor ou rigidez de nuca, vômitos frequentes e confusão mental. Em crianças pequenas, esses sintomas podem apresentar-se como choro persistente, irritação, falta de apetite, manchas vermelhas na pele e "moleira inchada". Na apresentação desses sintomas, deve-se procurar imediatamente a unidade de saúde mais próxima, para avaliação médica, análise preliminar de amostras clínicas do paciente e início de tratamento que deverá ser feito de acordo com o agente causador da doença.


MENINGITE
MENINGITE