VALOR DAS TARIFAS DE ÔNIBUS VAI AUMENTAR NO RIO, MAS SERVIÇOS DESAGRADAM

 Sexta-feira, 02/01/2015, às 17:58, por Amelia Gonzalez
NÃO FAZ NEM TANTO TEMPO ASSIM. ESTÁVAMOS EM JUNHO DE 2013 QUANDO O ANÚNCIO DE AUMENTO NAS TARIFAS DE TRANSPORTE PÚBLICO GEROU UMA ONDA DE MANIFESTAÇÕES POR TODO O PAÍS. NA ÉPOCA, O VALOR DAS PASSAGENS TERIA UM ACRÉSCIMO DE R$ 0,20. A CRISE QUE SE DEFLAGROU A PARTIR DAÍ E GANHOU AS RUAS COM MILHARES DE OUTRAS REIVINDICAÇÕES E QUEIXAS RECEBEU O TÍTULO DE “MANIFESTAÇÕES DOS 20 CENTAVOS”. E NÃO DEIXOU SAUDADES.
O assunto foi puxado numa reunião de amigos que esperava o ano acabar para comemorar 2015. É que agora sai o aumento. O anúncio foi feito pela Prefeitura do Rio na tarde de terça-feira (30) – naquele momento em que todo mundo está se despedindo ou se preparando para alguma festa. Tempo oportuno, portanto, para dar uma notícia sem que ela se alastre feito pólvora.
No pequeno grupo em que eu estava, muitas pessoas usam ônibus com frequência no Rio, inclusive eu. Não precisou muito para que começassem a surgir várias histórias dando conta do péssimo serviço prestado por esse tipo de transporte na cidade, justamente num tempo em que é preciso estimulá-lo cada vez mais. Com ou sem aumento, o fato é que os cariocas que precisam do transporte público coletivo sobre quatro rodas para se movimentar pela cidade sempre passam por maus pedaços e se sentem desrespeitados como usuários.
A maior queixa ouvida ali, entre os poucos amigos, era com relação ao tempo que se gasta à espera nos pontos. Lembrei-me de uma palestra do ex-governador do Paraná Jaime Lerner, quando ele contou sobre a decisão de implantar em sua cidade um sistema de ônibus que não deixava os passageiros esperando por mais de um minuto (veja aqui). Hoje o sistema curitibano está mal administrado, os passageiros esperam muito mais tempo nos tubos construídos para servir como abrigo.  Lerner acredita que há um valor mais alto, político, em defesa da construção do metrô, e que isso está canibalizando o esquema de ônibus. Uma pena, porque durante muito tempo a cidade foi conhecida internacionalmente por oferecer uma mobilidade eficaz a seus moradores.
A falta de ar-condicionado na frota dos ônibus do Rio – hoje não é mais luxo – também foi lembrada na reunião onde eu estava. E fico me perguntando: como pode alguém cobrar a mais por um serviço que, em regra geral, não está agradando, sem sequer uma justificativa? O mundo da política deve explicar esse mistério. Quanto a mim, cidadã que não frequenta os gabinetes onde essas resoluções são tomadas, sempre que preciso me deslocar de ônibus saio de casa uma hora mais cedo, mesmo para ir de um bairro a outro da Zona Sul. Ainda assim corro o risco de me atrasar. E chego suada, amassada, irritada.
“Trote Móvel”
Mas foi Victor, um jovem estudante universitário que frequenta diariamente a Ilha do Fundão, quem colaborou mais para o assunto pegar fogo antes de os fogos de verdade celebrarem 2015. Aqui, vale um parêntesis: há cerca de 26 mil estudantes em 54 unidades da Universidade Federal do Rio de Janeiro na Ilha do Fundão. Para sair de lá de ônibus, os alunos contam com 20 linhas. Para a Zona Sul, no entanto, diz Victor, as opções se estreitam: são apenas duas linhas, a 485 e a 486. Com aquele bom humor da juventude, que na vida adulta nos visita com menos frequência, Victor contou os horrores que enfrentam aqueles que precisam desses ônibus, sobretudo do 485, que já ganhou um apelido bem-humorado na universidade: o “Trote Móvel”.

“Criaram até uma página para ele no Facebook. Os motoristas são bizarros, desrespeitam todas as regras do trânsito, correm ali no campus quando estão atrasados, andam na contramão, sobem nas calçadas. Já ouvi várias vezes os trocadores responderem mal a quem reclama por estar muito cheio. Mandam andar de táxi, dizem que se o passageiro ainda consegue botar os pés no chão do ônibus é porque está sobrando lugar. E já peguei ônibus quebrado, com as poltronas rasgadas”, contou ele.
Alguém na sala decidiu fazer uma busca na internet sobre essa linha (da empresa City Rio) e descobriu muito mais, incluindo outro apelido pouco animador: o terror da Linha Vermelha ( reportagem sobre o tema). O BRT Transcarioca, inaugurado em outubro, ainda não mudou a situação precária das linhas do Fundão que trafegam pela Zona Sul, contou Victor.
“Saio da universidade às 17h e só vou chegar em casa três horas depois, por causa do engarrafamento. É duro. Nesse calor, e ainda mais lotado do jeito que vai, não dá nem para pensar em pegar um livro para ler ou um trabalho para fazer. São três horas de sufoco, desanima mesmo”.
Cálculos e falta de foco
Segundo a Prefeitura do Rio, a fórmula de cálculo para reajustar as tarifas utiliza valores indicados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse tipo de anúncio me faz lembrar as reflexões sobre ineficiência dos indicadores que medem a economia (PIB, IDH...) diante da vida real. Onde será que entra, nesses cálculos, o valor intangível, ou seja, a satisfação do cliente? Ficar três horas apertado, sob temperatura muito alta, com respiração difícil, dentro de uma carroceria de aço e vidro que se desloca lentamente por um caminho de asfalto fervendo não colabora em nada para nenhum tipo de desenvolvimento. Muito menos o pessoal. Como relata Victor, é difícil até pegar um livro para estudar e aproveitar o tempo de lentidão no trânsito sob condições tão severas.
Estou relatando um caso, somente um caso, dos muitos que já fazem parte do arquivo de histórias sobre uma cidade que não oferece aos seus moradores (e aos turistas que não querem gastar todo o dinheiro da viagem com táxi, caríssimo) um transporte eficiente, seguro, confortável. Trens e barcas também entram na lista de queixas. Os R$ 0,40, portanto, não são realmente o foco. Protesta-se mais pela falta de uma governança que exerça liderança sobre corporações para exigir delas respeito aos que pagam por um serviço tão mal executado. Ouvi de Jaime Lerner, certa vez, uma frase que bem poderia servir para todos os governantes que precisam lidar com empresários de ônibus: “Eu disse para eles: vocês cuidam da frota, eu cuido da rota. E vou cobrar pelo serviço.”
É isso. Mas... Hoje é o segundo dia do ano e estamos em tempo de felicitar, transmitir coisas boas, desejar que os próximos 365 dias sejam melhores do que os que ficaram para trás. Não escapo à tradição, mas para mim o nosso tempo é agora e já estamos atrasados para viver com mais liberdade, sem acreditar em falsas promessas, em falsos cenários. Desejo, do fundo do coração, que a civilização acorde cada vez mais para um estar-em-si que conecte o humano ao entorno, que valorize mais as relações, menos a acumulação de coisas e capital. Isso já vem acontecendo, aos pouquinhos, fora das multidões, dos eventos faraônicos, mais perto da singularidade. Fico feliz por ser, muitas vezes, arauto dessas boas iniciativas. A você, leitor, um 2015 singular, rico, com tempo para refletir e ter prazer!
*Fotos: Reynaldo Vasconcelos/Futura Press/Estadão Conteúdo;