Sem pagar impostos e com motoristas em más condições, empresas ilegais operam livremente nas vias

26/12/2013 06:00
LUCILENE OLIVEIRAespecial para o diário
Milhares de pessoas se aventuram em uma viagem sem roteiro definido. A bordo de ônibus precários e ilegais, com motoristas cansados por conta do excesso de horas à frente do volante, mulheres, crianças e idosos embarcam para destinos que vão desde cidades da Baixada Santista, a 70 quilômetros de São Paulo, a viagens para o Nordeste, que podem chegar a 2 mil quilômetros, percorridos em três dias. 
 
O transporte clandestino de pessoas acontece livremente no entorno dos terminais rodoviários e em importantes pontos da capital paulista. 
 
O DIÁRIO acompanhou o embarque de quem se aventura a entrar, em sua maioria, em veículos velhos, sujos, sem equipamentos de segurança, em três endereços: São Miguel Paulista e Brás, na Zona Leste, e no entorno da Estação do Metrô Jabaquara, na Zona Sul.  O pagamento é feito na hora  e não existe limite para a bagagem, desde que o passageiro pague a mais. 
 
Sem a certeza de como será a viagem, a diarista Marli, que viajava com os filhos de 5 e 9 anos de idade para Espinosa,  em Minas Gerais, se apegou à fé. “Se tiver de acontecer alguma coisa, acontece em qualquer lugar. Deus protege a gente”, afirmou ela.
 
No dia seguinte, um ônibus regularizado, novo, da Viação Penha, que saiu de Curitiba (PR) para o Rio de Janeiro, caiu em uma ribanceira em Itapecerica da Serra (SP). A polícia acredita que o motorista dormiu. Quinze pessoas morreram.
 
O aposentado Geon, de 59 anos, iria enfrentar  uma viagem de 32 horas para Jacobina, na Bahia, a bordo do  clandestino pela primeira vez. Segundo ele, a escolha pelo ônibus pirata foi para economizar. “Se fosse na rodoviária eu pagaria R$ 445, aqui sai  ‘só’ por R$ 220”. No site da Rodoviária do Tietê a passagem “oficial” para Jacobina custa R$ 324,23.
 
Mas se engana quem pensa que somente o preço é o grande atrativo dos clandestinos. Os passageiros das vans  ilegais que vão para o litoral pagam  R$ 2,05 mais caro do que os ônibus autorizados. Para descer para a Praia Grande, por exemplo, a passagem custa    R$ 30. A praticidade é que a  van  deixa a pessoa no endereço escolhido.    
 
Os clandestinos têm um esquema para evitar a fiscalização policial nas estradas. “Na frente do ônibus vai um carro, que passa para o motorista os lugares com fiscalização. Se tem bloqueio, o carro (ônibus) vai dar uma voltas. Por isso não temos roteiro definido”, disse Gonçalo, responsável por uma agência ilegal, à reportagem.
 
MAIS
 
Aumenta clandestinos na época de festas
A ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) confirmou que, devido às férias, a demanda de veículos clandestinos nas estradas aumenta. Mas em contrapartida a fiscalização é intensificada.  
 
94 veículos foram autuados em dezembro
 
Equipe fica posicionada em locais para coibir fuga
Sobre as empresas usarem olheiros para fugir de blitz policial, a ANTT explicou que o desvio dos veículos é previamente analisado através de levantamento de inteligência. Para coibir a prática,  equipes ficam posicionadas em pontos de interceptação para a abordagem destes ônibus  que desviam da fiscalização. De acordo com a agência, a estratégia vem demonstrando resultados.
 
ENTREVISTA
 
Basilio Militani Neto_ fiscalização da ANTT
‘De São Paulo dá para chegar a qualquer destino do país’
 
Para coibir o transporte de pessoas em veículos clandestinos, a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) intensificou a fiscalização nas estradas neste período de festas. O coordenador de fiscalização da ANTT falou sobre os principais riscos para quem utiliza este tipo de transporte e as condições insalubres de trabalho  dos motoristas da rede.
 
DIÁRIO_ A fiscalização nas estradas é intensificada neste período do ano?
BASILIO MILITANI NETO _  A ANTT  intensificou a fiscalização no município de São Paulo antes das festas. Esta semana intensificou a  fiscalização na Rodovia Presidente Dutra e alguns veículos foram direcionados para o pátio. Na primeira e segunda semana de dezembro, 13 veículos foram apreendidos.  
 
O que acontece com os passageiros  quando um veículo clandestino é apreendido?
O infrator tem até duas horas para contratar um veículo regular. Caso ele não consiga, a fiscalização requisita o veículo e os passageiros são transferidos sem custo para este novo ônibus. O infrator paga as custas do transporte com o veículo regular. O cálculo é de  R$ 0,13 por passageiro a cada quilômetro rodado. Viagens para o Nordeste, por exemplo, chegam a custar R$ 28 mil.  
 
Quais os riscos para as pessoas que viajam a bordo de um veículo clandestino?
O risco maior é de acidente. Geralmente vão só dois motoristas em toda a viagem  e o revezamento é feito durante o trajeto. O motorista dorme dentro do próprio ônibus. A empresa ilegal não respeita a quantidade de horas para o motorista, mantém dois condutores  para  dois mil quilômetros. Na lei atual, o motorista tem de ter, no mínimo, 30 minutos de descanso para cada quatro horas dirigindo.
 
Qual o principal destino dos clandestinos de São Paulo?
A cidade de São Paulo se constitui num verdadeiro ‘hub’, existem veículos de transporte clandestino com saída e chegada de São Paulo para praticamente todas as regiões do país. A predominância maior é para municípios nos estados do Nordeste, em especial os localizados no interior dos estados, o sertão nordestino.