Rios da Amazônia e água doce do mundo estão sob ameaça, dizem pesquisadores

Leonardo Siqueira

Do UOL, em São Paulo

09/05/201406h00

 

Vista aérea dos pedrais da Volta Grande do Xingu, trecho do rio que será impactado pela construção da hidrelétrica de Belo Monte

O desmatamento, a poluição, a agricultura e a construção de hidrelétricas como a de Belo Monte, no Pará, estão ameaçando os rios da Amazônia, que formam a maior bacia de água doce do mundo. A afirmação é do pesquisador da universidade americana Virginia Tech, Leandro Castello. "A degradação dos rios vai afetar as populações locais, e isso tem sido observado em outros lugares do mundo. Está acontecendo no rio Mekong, no Vietnam, e no rio Ganges, em Bangladesh. E será o futuro da Amazônia, caso nada seja feito", diz.



Na visão do cientista, não há uma estrutura ou política de manejo adequada às bacias hidrográficas da região. "A previsão é infeliz e esse quadro só tende a piorar. O Brasil tem sido pioneiro em questões terrestres e de preservação das florestas, mas em relação aos rios da Amazônia, nada está sendo feito", diz. 

"Os corpos de água doce do mundo estão em profundo risco. Então, é claro que a Amazônia não fica fora, pois também acaba sendo contemplada com um enorme conjunto de problemas que afeta a bacia hidrográfica", diz a pesquisadora do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Maria Teresa Fernandez Piedade.

A Amazônia tem 4.196.943 milhões de quilômetros quadrados e a maior bacia hidrográfica do mundo, que cobre 6 milhões de quilômetros quadrados com seus 1.100 afluentes, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente. O maior bioma do Brasil é fundamental para o equilíbrio ambiental e climático do planeta e a conservação dos recursos hídricos.

Os sistemas de água doce são os mais degradados do mundo. E muitos deles já não são como antigamente graças à ação do homem.  Na Amazônia, por exemplo, a pesca excessiva levou algumas espécies à extinção. O tamanho dos peixes também diminuiu ao longo dos anos

Segundo a cientista do Inpa, estudos realizados pela entidade apontam que, das últimas décadas para cá, as cheias e as secas estão cada vez mais intensas e severas naquela região. "Isso indica que as mudanças climáticas já podem estar se fazendo sentir nestes sistemas", sugere Maria.

Para Castello e Maria, os problemas da Amazônia não estão restritos à região norte do país. "Se os rios secam, o transporte de grãos como a soja, que é exportada, pode ser comprometido, impactando a economia nacional. A seca nos rios também afeta a produção de energia elétrica em represas como Belo Monte. Se essas represas param, o Sul e o Sudeste podem enfrentar apagões", lembra Castello.

Já os efeitos do desmatamento em larga escala, seja para o extrativismo madeireiro ou para propósitos agrícolas, pode mudar o balanço hídrico do território, que é ligado ao de outras regiões, lembra a pesquisadora do Inpa. Maria Victoria Ramos Ballester, do Centro de Energia Nuclear (Cena) da USP, campus Piracicaba, lembra a importância da Amazônia para outros países. "A Amazônia tem um papel importante na redistribuição da umidade, não só no Brasil, mas na América Latina. Trata-se de um sistema de circulação regional", destaca.

O Ibama, em parceria com a Fundação Nacional do Indio(Funai) e o Batalhão de Policiamento Ambiental (Bpam), realizou operação na Terra Indigena Rio Manicoré, localizada no mesmo município, sul do Estado do Amazonas.Durante a açõa, foram apreendidos aproximadamente 85 mᶟ de madeira em toras e foram aplicadas multas de R$30mil. A madeira, em sua maior parte, angelim-pedra, estava sendo transportada na balsa Navezon B29, que também foi apreendida.

Floresta Amazônica pode virar cerrado

Outro estudo, que envolve cientistas brasileiros e americanos, aponta numa direção semelhante. A pesquisa irá analisar três eventos extremos que ocorreram na Amazônia na última década a fim de prever o impacto das mudanças climáticas e do desmatamento no ecossistema da região. A investigação receberá um milhão e meio dólares da Nasa, a agência espacial americana. Participam do estudo pesquisadores da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), e das federais de Alagoas (Ufal) e Rio Grande do Norte (UFRN).

A previsão do estudo em relação à ocorrência de eventos extremos é negativa. "Acreditamos que as mudanças climáticas irão, no futuro, contribuir para enchentes e secas cada vez mais severas e frequentes", afirma Michael Cohe, um dos cientistas envolvidos no projeto. Em outras palavras, secas como as de 2005 e 2010, e a enchente de 2009, que ocorreram na Amazônia, poderão se tornar cada vez mais comuns. Para Maria, este e outros trabalhos revelam "a preocupação com a manutenção da integridade desta imensa bacia hidrográfica".

Outro ponto que preocupa os cientistas é a construção de represas e hidrelétricas. "Isso só vai piorar os efeitos das mudanças climáticas e do desmatamento", aponta Castello, que lidera a investigação feita em parceria com pesquisadores brasileiros. Segundo ele, o desmatamento em larga escala faz com que chova menos e a região fique seca. "Isso pode fazer com que a floresta da Amazônia se transforme em uma floresta de cerrado", prevê.

O nível do Rio Negro, cheio de entulho, chegou a 29,28 metros e já é o oitavo maior da história, podendo atingir a cota de 29,71 metros , conforme foi anunciado pelo Serviço Geológico do Brasil, se isso acontecer será a terceira maior enchente registrada( zona norte de Manaus.

Já se noticiava anos atráz sobre o desmatamento.

Matéria de  Márcio Souza (*)

Márcio Souza (*)

O drama da Amazônia vem desde os tempos da Ditadura Militar. O modelo imposto e ainda vigente é o da degradação ambiental em processo acelerado. Segundo os mais conservadores levantamentos aproximadamente 11% da cobertura vegetal da região foi destruída irremediavelmente até o ano de 2001, apenas na Amazônia brasileira. A pecuária e o uso do solo predominam nessas áreas por toda a região.

Entre 1990 e 2003, o rebanho bovino na Amazônia cresceu de 26 milhões e 600 mil cabeças para 64 milhões de cabeças, um aumento de 14% segundo fontes do IBGE. Mas as sociedades nacionais que possuem a Amazônia ainda não se deram conta dos conflitos de interesses que se desenvolvem na região, e os danos irreversíveis que foram causados ao meio ambiente. Entre 1965 e 1970, a Amazônia foi a rota final de milhares de imigrantes do sul do Brasil.

O governo militar tratava de resolver o problema agrário que crescia no extremo sul do Brasil, num momento em que as tradicionais fronteiras de São Paulo e Paraná estavam esgotadas. O sistema agrário do sul passava por um processo de modernização das práticas agrícolas acompanhadas de créditos e incentivos fiscais, levando a um grande número de pequenos proprietários rurais a venderem suas terras.

No começo dos 60 o sul estava expelindo mais gente do que podia absolver. O Pará, o Maranhão e Rondônia foram os estados que receberam um grande número de colonos. Numa única década a fronteira deslocou e empurrou para a Amazônia 10 milhões de pessoas. Sobre essa questão deve-se ter uma visão correta, evitando cair no catastrofismo de certos defensores de nossa integridade, que não foram convidados por nós a fazer nossa defesa, mas que insistem em soluções salvacionista, sem nenhuma base científica que reduzem a Amazônia, da mesma forma que os militares o fizerem, a um território sem tradição cultural ou história, que precisa ser ocupado por suas boas intenções.

O ambientalista Thomas W. Fatheuer comenta que: “A ecologização total da Amazônia esvazia a região de suas características sociais. É fácil de compreender porquê, no modelo de equilíbrio ecológico, todas as intervenções humanas são classificadas como prejudiciais. Exagerando: o homem parece, a não ser que seja índio, como destruidor, como predador. Ele nem poderia deixar de sê-lo. Ele nem poderia deixar de sê-lo. A crítica ao desenvolvimento da Amazônia se volta assim não contra um modelo histórico, econômico e socialmente determinado de apropriação, mas contra todo e qualquer aproveitamento humano”. Mas a pressão humana está totalmente estabelecida e consolidada pelos projetos de colonização e as investidas dos grupos agro-pecuários.



Os impactos ambientais nessas áreas são mais intensos que nas fronteiras de ocupação por causa da maior fragmentação da floresta e das atividades industriais urbanas. No final dos anos 70, a fronteira amazônica já se encontrava fechada, com as melhores terras ocupadas extensos latifúndios em mãos de especuladores e grupos agro-pecuários gozando dos incentivos fiscais.

Com o fim da Ditadura, o governo da “Nova República” poderia ter realizado a Reforma Agrária, expropriando as terras das mãos dos especuladores, na maioria sem titulação legal ou até mesmo falsa.

Segue-se a velha omissão e o oportunismo do poder público brasileiro, que não cuidou de evitar o caráter destrutivo da expansão agrícola, se absteve de realizar um efetivo controle social permitindo que os desmatamentos prosseguissem.
Provavelmente a amais séria das omissões foi a falta de controle sobre o processo de ocupação. Já no começo dos anos 80 as melhores terras estavam registradas em nome dos latifundiários e dos especuladores. Alguém notou algo sobre o problema entre os candidatos ao governo?