Paulistano trabalha 4h a mais por mês para pagar nova tarifa de transporte

Paulistano trabalha 4h a mais por mês para pagar nova tarifa de transporte

Por Ana Flávia Oliveira - São Paulo | 11/01/2015 10:15 - Atualizada às 11/01/2015 10:16

Trabalhador que recebe o salário mínimo terá de trabalhar 2h08 por dia para pagar tarifa; em dezembro, era 1h59

Protesto de sexta (9) foi o primeiro contra o aumento da tarifa para R$ 3,50

Com o novo valor das tarifas de ônibus, metrô e trem a R$ 3,50, o paulistano que recebe salário mínimo terá de trabalhar nove minutos a mais por dia para pagar a passagem do que trabalhava em dezembro do ano passado, quando a condução custava R$ 3.

De acordo com cálculos feitos um trabalhador hipotético que recebe salário mínimo, atualmente em R$ 788, utiliza duas conduções diárias (ida e volta) e trabalha 22 dias por mês, em oito horas diárias, terá de trabalhar 2h08 minutos por dia para pagar o transporte. Com isso, no mês, serão necessárias 64 horas para pagar a tarifa ou oito dias de trabalho.

Em dezembro passado, com as mesmas condições de trabalho, mas com a passagem a R$ 3 e o salário mínimo a R$ 678, o peso das tarifas fazia o paulistano trabalhar 1h59 minutos por dia para pagar o transporte, ou seja, 60 horas por mês ou 7 dias e meio.

José Silvestre, coordenador de relações sindicais do Dieese, lembra que as famílias de baixa renda acabam sendo as mais afetadas pelo recente aumento, pois os gastos com transportes, habitação e alimentação são os itens que mais pesam no orçamento.

 “O impacto da condução é alto. Considerando que este trabalhador [que ganha salário mínimo] utilize apenas duas passagens, o transporte a R$ 3,50 compromete 19,54% do salário mínimo bruto. Se ele tivesse um comprometimento menor, poderia ter acesso a mais itens, como lazer, cultura, vestuário e calçados”.

Em dezembro, antes do aumento da passagem e do mínimo, o comprometimento era de 18,23% do salário.

O economista Miguel Ribeiro de Oliveira, diretor executivo de Estudos e Pesquisas Econômicas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), pondera, no entanto, que o gasto a mais com o transporte não é o único problema para o trabalhador.

“Não é só o aumento da condução que impacta o bolso do trabalhador. Tem uma série de custos adicionais subindo. É a taxa de juros mais alta, o aumento na conta de luz, com as novas regras de cobrança, é o IPTU [Imposto Predial e Territorial Urbano] de São Paulo que terá aumento. Isoladamente, o aumento do transporte significaria apenas um aperto de cinto em outras áreas, mas não seria problema porque também teve um aumento salarial que deixa tudo quase empatado, mas se junta todo esse conjunto de gastos, as pessoas ficam mais pobres”.

Tarifa zero para estudantes

O aumento foi anunciado em dezembro do ano passado e começou a valer na última terça-feira (6). Para amenizar o impacto do aumento, a Prefeitura de São Paulo anunciou o passe livre para estudantes de baixa renda. A decisão vai beneficiar 505 mil estudantes. Além disso, a prefeitura também informou que os bilhetes nas categorias mensal, semanal e diária não sofrerão alterações no valor. Um projeto parecido do governo do Estado parado na Assembleia Legislativa de São Paulo devido ao recesso dos deputados deverá ser votado após o dia 2 de fevereiro. Assim como a municipal, a proposta prevê gratuidade para estudantes de escolas e universidades públicas e de universidades particulares que tenham bolsa de estudos.

Apesar das medidas, a exemplo do que aconteceu em junho de 2013, o Movimento Passe Livre (MPL) já realizou os primeiros atos contra o aumento de R$ 0,50 das tarifas na capital paulista. Depois de um hiato de cerca de seis meses, o primeiro ato do MPL foi uma aula pública na última segunda-feira (5), que reuniu 350 pessoas. Na ocasião, o ex-secretário dos Transportes da capital Lucio Gregori, um dos idealizadores do projeto da tarifa zero no governo de Luiza Erundina (1989-1993), afirmou que uma das maneiras para se alcançar a maior bandeira do grupo é diminuir o lucro dos empresários.

A primeira manifestação aconteceu nesta sexta-feira (9) e reuniu duas mil pessoas, segundo a Polícia Militar. Os manifestantes caminharam do Theatro Municipal, na região central, e tentavam chegar à avenida Paulista quando começou o conflito com a polícia.

Ato do MPL: "Você chuta uma lata de lixo e vem uma chuva de bombas de gás"

A polícia usou bomba de gás lacrimogênio e balas de borracha. Ao fim do protesto, 51 haviam sido detidas. O MPL divulgou nota afirmando que a PM reprimiu o ato de forma violenta e “que lançou bombas de gás, bombas de estilhaço mutilante e atirou com balas de borracha para impedir que a marcha chegasse à Avenida Paulista”.

Veja fotos do protesto desta sexta-feira: Policiais avançam sobre manifestantes no ato desta sexta-feira, que terminou em quebra-quebra e prisões. Foto: Leonardo Benassatto/Futura Press