PARTICIPANTES DE PROGRAMAS DE ENSINO PARA O PÚBLICO FORMAM CONTINGENTE DE QUASE 4 MILHÕES DE PESSOAS

Adultos e idosos superam barreiras e retomam estudos

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José Santiago levou mais de meio século sem pisar na escola - Custódio Coimbra / Agência O Globo

RIO - Quando voltou para casa depois da aula, naquela tarde longínqua dos anos 1940, José Santiago não suspeitava de que levaria mais de meio século até pisar de novo numa escola. Analfabeto, o potiguar teve a vida mudada depois da morte da mãe e do rompimento das relações com o pai, quando só tinha estudado por um ano. Ele morou na rua, fez biscates no seu estado natal e no Ceará e veio parar no Rio de Janeiro, onde se empregou na construção civil. O ritmo intenso do trabalho o manteve longe de livros e cadernos - mas, por uma incrível sorte, perto do sucesso profissional. José deixou de ser empregado e montou sua própria firma. Sem saber ler ou escrever, porém, logo teve de enfrentar obstáculos sérios. Como descobrir, por exemplo, que sua ex-secretária fechava acordos sem sua participação:

 Ela fazia tudo. Quando fui ao banco pela primeira vez sozinho, foi o pior momento da minha vida. Queria pagar uma conta mas não sabia preencher o cheque. Pedi para o caixa, para o gerente, para as pessoas na fila, e todos falaram que não podiam fazer. Fiquei revoltado e comecei a gritar que o dinheiro era meu e que só queria pagar.

O episódio ocorreu em 21 de agosto de 2005. Foi transformador. No dia seguinte, José, já um senhor de 70 anos, foi até o Ciep Rubens Gomes, em Barros Filhos, na Zona Norte carioca, e se inscreveu na Educação de Jovens e Adultos (EJA), que frequenta há nove anos - e de onde se recusa a sair. Ele é um dos 3.977.670 brasileiros, segundo dados somados dos governos estaduais, participantes de programas de ensino de adultos.

- No final dos anos 90 e no início dos anos 2000, houve um boom nesse segmento (etário). Deveu-se muito às políticas empreendidas para que colégios particulares incorporassem esses estudantes. Acabou falhando. Logo depois, houve uma queda muito grande, e, atualmente, o número desses alunos está se firmando dentro de uma margem. O dado principal é que o perfil mudou. Cada vez mais aumenta o número de pessoas mais velhas na EJA - descreve a pesquisadora de educação Ana Célia Costa, da Universidade de Brasília (UnB).

NO ENEM, O TRIPLO DE ‘COROAS’

O aumento no número de idosos inscritos no Exame Nacional do Ensino Médio retrata à perfeição essa mudança de perfil. A prova, que pode ser usada para a conquista da certificação de nível médio, teve o seu número de candidatos com mais de 60 anos saltando de 4,7 mil, em 2009, para 15,5 mil em 2014.

- Os mais velhos estão voltando aos bancos escolares depois de já conseguirem uma estabilidade financeira. Tínhamos que conseguir quantificar a motivação para fazer o Enem. Já compreendemos que muitos jovens deixaram de fazer a EJA pois conseguem o certificado pelo Enem. Mas, entre os mais velhos, essa motivação se torna mais diversificada. Em entrevistas, vemos que muitos fazem para se testar ou para continuar o estudo. Mas, para eles, o mais importante é o espaço de convivência que a escola possibilita - arrisca Ana Célia.

A socialização com outras pessoas de realidades e interesses similares foi o que mais fascinou a costureira Euremir Araújo, de 60 anos.

- Eu sentia muita vergonha quando entrei. Até já sabia ler e escrever, mas não era boa. A professora pedia para ir ao quadro, e eu não queria. Depois fui vendo que o ambiente era muito legal e, agora, eu só quero ir ao quadro escrever - comemora Euremir, para quem a convivência, às vezes, também traz problemas: - Os grupos mais jovens são mais agitados. Tem horas em que eu fico irritada, mas eles também ajudam quando veem que estamos com dificuldade.

A estudante Gracielly Lima, de 24 anos, concorda com Euremir. Para ela, a diferença geracional resulta em atritos.

- Todos da minha idade estão ali para pegar o certificado e conseguir algum emprego. Você percebe que entre os mais velhos existe uma vontade de aprender, de prestar atenção a cada momento. Tem momentos em que rola estresse, mas a convivência é boa - conta a jovem, que diz tentar convencer a mãe a também aderir ao programa e voltar a estudar.

Por motivos profissionais, Marcos de Oliveira, de 45 anos, foi procurar uma turma de EJA. Operário do setor de construção civil, recebeu um ultimato do patrão: ou obteria um certificado de conclusão de estudos ou não ficaria no emprego. O que era para ser obrigação virou prazer:

- Vim motivado pelo meu chefe, mas obrigado. Agora estou aprendendo muito. Semana passada fomos visitar o Museu de Arte Naïf e, depois, fizemos uma atividade de pintura. Eu, que tenha a pintura como profissão, adorei ver o outro lado dessa área.

PROGRAMA ENVOLVE A FAMÍLIA

Na cidade do Rio, um programa envolve a família a fim de atrair adultos de volta às carteiras escolares. A iniciativa Sou Pai, Sou Estudante busca seus futuros alunos durante as reuniões de pais de estudantes do ensino regular.

- Quando vemos algum parente com dificuldade, entramos em contato para convidá-lo a participar do nosso EJA. Atualmente, nas formaturas temos os filhos entregando os diplomas para os pais. É uma forma de reaproximar o colégio daqueles que tiveram que abandoná-lo - afirma a secretária municipal de Educação, Helena Bomeny.

O Rio, contra o fluxo de estabilidade da média nacional, viu crescer em 13% o número de estudantes da Educação de Jovens e Adultos. Virou exemplo do novo perfil de aluno do segmento: cada vez mais velho. Do ano passado para este, o percentual de jovens de 15 a 16 anos na EJA caiu de 26% para 7%, enquanto a faixa de acima de 60 anos aumenta a cada ano. José Santiago se orgulha de fazer desse grupo:

- A professora já quis que eu passasse para outra turma, mas eu não quero. Quero aprender a ler e a escrever da melhor forma, e a convivência com a minha turma é muito boa. Não quero sair.