O futuro que eles imaginam

Atual e ex-prefeitos falam sobre os desafios de São Paulo nas próximas décadas

24 de janeiro de 2014 | 23h 50

O Estado de S. Paulo

 

 

Que conselho o(a) sr(a). daria aos futuros prefeitos?

 

HADDAD: Tenho investido muito tempo e energia na questão do Plano Diretor. Uma cidade precisa ter um desenho. Quando a gente lançou a ideia do Arco do Futuro, e estamos trabalhando o Arco Tietê agora, é para dar uma ideia de que São Paulo tem um desenho urbano que faz sentido e investir nesse desenho. Não adianta cada prefeito querer lançar o seu. Nós estamos revendo agora o Plano Diretor, que eu espero que tenha influência para as próximas gerações.

KASSAB: São Paulo precisa usar o seu peso político para fazer com que os governos estadual e federal invistam mais no campo da mobilidade urbana. A Prefeitura não tem capacidade financeira para suportar esses investimentos, e o Estado precisa investir mais. Tem investido bastante, mas não deu conta do recado.

SERRA: Não lotearem a administração. Não ficarem atabalhoados quando caírem nas pesquisas nos primeiros meses da gestão, a fim de evitar cometer bobagens irrecuperáveis. Montar equipes nas quais, em suas áreas, os titulares saibam mais do que o prefeito. Cuidar dos recursos e controlar a execução.

MARTA: Ouse, procure soluções criativas, mas não desagrade a muitos ao mesmo tempo.

Qual deverá ser o maior desafio da SP do futuro?

HADDAD: A longevidade. As pessoas vão envelhecer e nós vamos ter de compreender a cidade a partir dessa lógica. Isso vai mudar as estruturas da cidade, vai mudar a maneira de construir prédio, vai mudar a maneira de construir equipamentos públicos, as demandas sociais vão se alterar completamente.

KASSAB: O grande desafio de qualquer grande cidade é criar qualidade de vida para que mais pessoas vivam nas cidades, até porque a tendência é que elas prefiram morar nos grandes centros urbanos. Na demanda por qualidade de serviços, principalmente no campo social - educação, saúde, esporte, assistência -, ainda teremos problemas não solucionados.

SERRA: Difícil prever. Depende da qualidade média das sucessivas administrações da cidade e do Estado, e do que acontecerá com o desenvolvimento do Brasil como um todo. As escolhas políticas que a população fará ao longo das décadas serão determinantes.

MARTA: Número de pessoas morando na cidade e mobilidade. Daí a necessidade de se pensar outro tipo de inserção no mundo em transformação em que vivemos. Diante das novas tecnologias de comunicação, da incorporação do trabalho feminino em todas as atividades, da percepção da importância do cuidado materno e assistência infantil, serão propostas novas formas de organização do trabalho.

Qual foi o maior erro de sua gestão?

HADDAD: O maior problema que nós enfrentamos foi a perda de receita. São Paulo perdeu duas fontes importantes, que é a tarifa (de ônibus) e o IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano, cujo aumento foi barrado pela Justiça). São Paulo perdeu parte de sua capacidade de investimento.

KASSAB: Se o tempo voltasse, eu acredito que eu teria sido muito mais duro nas nossas relações com o governo do Estado e o governo federal. Para exigir mais investimentos.

SERRA: Francamente? A arquitetura da nova Praça Roosevelt, cuja reforma começou de fato na minha gestão. Tem chão de cimento demais. Outra coisa: não ter conseguido remover da Praça do Patriarca aquela estrutura enorme que acabou com a praça.

MARTA: Ter feito muita coisa em pouco tempo. No Executivo, tem de se analisar cuidadosamente o quadro político para agir.

Qual problema atual já terá sido superado em 40 anos?

HADDAD: Acho que vários problemas estarão muito bem encaminhados, no mínimo. A questão, por exemplo, do combate a enchentes. São Paulo vem melhorando e tem tudo para resolver esse problema. A questão do transporte público. Eu acho que vai estar muito melhor do que hoje, as providências já estão sendo tomadas.

KASSAB: No que diz respeito à infraestrutura das cidades acredito que daqui a 40, 50 anos, nós vamos ter grande parte das demandas respondidas. Por exemplo, transporte público, metrô. Não é possível que São Paulo repita os erros. São Paulo era para ter hoje de 400 a 500 km de metrô.

SERRA: Os problemas de saneamento e enchentes serão coisa do passado. O transporte será muitíssimo melhor do que hoje, graças à expansão do sistema metrô-CPTM. A mobilidade urbana será também beneficiada pelas práticas de uso e ocupação múltiplas do solo. O atendimento à saúde, se comparado com o atual, será mais eficiente e abrangente. O ambiente cultural poderá ser excepcional, se tivermos a sorte de contar com governantes minimamente qualificados.

MARTA: Vai depender da verbalização, para não dizer mobilização, da sociedade, e percepção pelos dirigentes em todas as instâncias públicas e privadas para conduzir esse processo. Vivemos um momento único de mudanças profundas. As soluções não serão individuais ou temáticas, mas serão um grande e tortuoso processo de adaptação.

SP vai continuar sendo a maior e mais rica cidade do País?

HADDAD: Depende das decisões que nós tomarmos hoje. São Paulo não pode ter a arrecadação que tem, a cidade precisa investir mais. Hoje, São Paulo investe metade do que o Rio investe.

KASSAB: Será, sem dúvida nenhuma. Nós estamos passando por uma transformação. A indústria está deixando a cidade de São Paulo, como deixou todas as grandes cidades do mundo, e dando espaço para a indústria de serviços. Essa é a transformação que se consolida na cidade.

SERRA: A maior, certamente. A mais rica em termos de renda por habitante? Creio que já não é. As cidades médias tendem a ganhar essa corrida. Mas a meta importante deve ser outra: a qualidade de vida.

MARTA: Apesar do crescimento comparativamente maior de outras cidades, São Paulo tem um acúmulo de saberes e empreendedorismo difícil de ser superado.

Qual o maior acerto de sua gestão?

HADDAD: O maior acerto, sem sombra de dúvida, é o fim da aprovação automática na educação.

KASSAB: Inquestionavelmente, o maior acerto foram os investimentos em saúde e educação. Nós investíamos, no início da minha gestão, 15% do Orçamento em saúde. Ao final da gestão, a média era de 19%. Nós construímos mais de 300 escolas. E elevamos o patamar de remuneração dos servidores da educação, dos professores, assim como o da saúde.

SERRA: De um lado, a melhora rápida na zeladoria da cidade, o recapeamento das ruas de todo o município em um ano, a recuperação financeira da Prefeitura, a redução de custos de obras e serviços. Do outro, as inovações em cada uma das áreas: Virada Cultural, AMAs, Nota Fiscal Paulistana, Programa Ler e Escrever, Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso, o início do Expresso Tiradentes.

MARTA: Em primeiro lugar, ter prioridade. Depois, ouvir, mudar se necessário e, decidindo, ter coragem para fazer o que argumentavam ser impossível.