O acordo entre entidade e empresa será decidido hoje, em urna, modelo inusitado na fábrica.

Mercedes investirá R$ 3 bi, diz sindicato

 

Ansiedade, vaias, críticas e aplausos não faltaram, ontem, em assembleia no estacionamento da unidade de São Bernardo da Mercedes-Benz. Quase a totalidade dos trabalhadores, dos turnos da manhã e da noite, cerca de 10 mil, protagonizaram as emoções e atitudes. O motivo: o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC informou que a montadora investirá 1 bilhão de euros (cerca de R$ 3,06 bilhões no câmbio oficial de ontem) em troca da aprovação da proposta da campanha salarial para até 2017.

O acordo entre entidade e empresa será decidido hoje, em urna, modelo inusitado na fábrica, mas defendido como forma de dar mais credibilidade à votação pelo presidente do sindicato, Rafael Marques. O investimento, informou o diretor de comunicação da entidade, Valter Sanches, será destinado para manter toda a planta de São Bernardo, além de fabricar em 2016 o modelo de caminhão Acello, em 2018 o Actros e ‘desterceirizar’ várias atividades para acrescentar mais 250 funcionários da Mercedes na unidade.

Inclui também a implantação de centro de customização de caminhões, que prevê a contratação de 50 funcionários para que os compradores possam incluir no Finame (Financiamento de Máquinas e Equipamentos do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) os acréscimos e adequações nos veículos, que atualmente são feitos por fora do crédito. “Na Alemanha, esse centro tem cerca de 1.000 trabalhadores. Aqui, ele terá um grande potencial de crescer”, disse o diretor.

COMPENSAÇÃO - Questionado sobre a possibilidade de uma negativa dos empregados da Mercedes em relação à proposta, Sanches foi direto: “Eles não investirão nada aqui. Vai tudo para Juiz de Fora (Minas Gerais).”

Segundo ele, a empresa pede como contrapartida do polpudo investimento a aprovação do pagamento do reajuste salarial deste ano, com base no INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) acumulado em 6,35%, sob forma de abono, como a PLR (Participação nos Lucros e Resultados), para reduzir a carga tributária, em pagamento que totalizará R$ 5.250 no dia 2. O aumento real de 2% será inserido no banco de horas, ou seja, transformado em 44 horas de folga.

Para 2015, o mecanismo muda. Será o INPC acumulado entre setembro e abril, inserido no salário a partir de 1º de maio, mais abono, referente ao aumento real de 2% nos salários, de R$ 2.427, no dia 20 de maio. A mesma metodologia será utilizada em 2016 e 2017, com valor do abono de, consecutivamente, R$ 2.533 e R$ 2.661.

Outro ponto proposto foi a PLR de R$ 10.102, pela produção estimada para este ano de 48.805 veículos, com o pagamento da segunda parcela no dia 20 de dezembro, que será de, aproximadamente, R$ 3.102, já que o primeiro pagamento, em maio, foi de R$ 7.000.

Soma-se também a prorrogação do fim do período de <CF51>lay-off</CF> (suspensão temporária de contratos de trabalho) de cerca de 1.015 trabalhadores de 30 de novembro para 30 de abril. E a abertura de PDVs (Programas de Demissão Voluntária) em novembro e janeiro. Marques disse que a manutenção do emprego desses funcionários dependerá, após o fim do programa, do mercado e de novas negociações.

Procurada, a Mercedes informou que não iria se pronunciar porque ainda negocia com o sindicato.

Trabalhadores vaiam entidade sobre método de votação

Diferentemente do que normalmente acontece em campanhas salariais, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC informou aos trabalhadores que a votação da proposta será em urna, e não com os braços erguidos. Por isso, a maioria dos funcionários da Mercedes-Benz que presenciaram a assembleia explicativa de ontem vaiou o presidente da entidade, Rafael Marques, que informava a decisão sobre o caminhão de som.

Em meio às vaias, ele continuou seu discurso e destacou que esta é uma maneira de dar mais credibilidade à votação, mas os trabalhadores gritavam “vota agora”, sem efeito.

Marques destacou, após sua fala, que esse tipo de plebiscito não é novidade e que já foi utilizado em outras montadoras de região.



Fonte: Pedro Souza/Diário do Grande ABC - 26/09/2014