Jorge Hage diz que entregou a Dilma carta de demissão da chefia da CGU

Jorge Hage diz que entregou a Dilma carta de demissão da chefia da CGU

08/12/2014 11h50 - Atualizado em 08/12/2014 12h43

Ministro é responsável pelo combate à corrupção no governo federal.

Em setembro, ele disse que CGU enfrentava uma 'penúria orçamentária'.

Do G1, em Brasília

O ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Jorge Hage, informou nesta segunda-feira (8) que entregou à presidente Dilma Rousseff carta na qual pede demissão do cargo. Segundo o ministro, o documento foi apresentado à chefe do Executivo no início de novembro.

Responsável pelo combate à corrupção na administração federal, Hage é um dos remanescentes do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). Ele foi nomeado para a chefia da CGU em junho de 2006. Em 2010, ao assumir o comando do Palácio do Planalto, Dilma o manteve à frente do ministério.

Eu apresentei à presidente Dilma Rousseff a minha carta pedindo que ela me dispense do próximo mandato. [...] Então, a minha pretensão é não ter a minha nomeação renovada. Estou pedindo minha demissão"

Jorge Hage, ministro da CGU

Ao final da cerimônia organizada pela CGU em parceria com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc), Jorge Hage disse a repórteres que decidiu deixar o Executivo por avaliar que já deu sua contribuição ao serviço público. Segundo ele, após 12 anos atuando no órgão de fiscalização, está na hora de "descansar".

"Eu apresentei à presidente Dilma Rousseff a minha carta pedindo que ela me dispense do próximo mandato. Apresentei isso nos primeiros dias de novembro. Então, a minha pretensão é não ter a minha nomeação renovada. Estou pedindo minha demissão", ponderou o ministro no evento que homenageia o Dia Internacional contra a Corrupção, que será celebrado nesta terça (9).

"Já cumpri com meu dever, já dei a minha contribuição. Já são 12 anos de Controladoria, sendo nove como ministro. Está na hora de descansar", complementou.

'Penúria orçamentária'
Em seu discurso no evento desta segunda-feira, Jorge Hage lembrou que, em 2014, houve um grande corte orçamentário na CGU. O ministro destacou que, na opinião dele, é preciso "elevar" o nível de investimentos do Estado em órgãos de controle.

"Realmente houve um corte grande de despesas. A Controladoria já tinha historicamente um orçamento pequeno. Nós representamos um peso ínfimo no orçamento federal, sobretudo se comparado com o que se evita em desperdício e desvios. Então o que sustento é que é preciso, numa nova fase, no futuro, elevar o nível de investimento nos órgãos de controle e ampliar o sistema de controle", disse Hage.

Em setembro, o chefe da Controladoria-Geral da União já havia ressaltado ao G1 que a redução de R$ 7,3 milhões no orçamento do órgão, em relação ao de 2013, havia gerado uma situação de "penúria orçamentária" na pasta.

Nesta segunda, o ministro voltou a criticar o atual déficit de auditores na CGU. Hage observou que, desde 2008, o órgão de fiscalização perdeu 300 auditores. Por isso, contou o ministrol, ele teve de realocar servidores de diversos setores para suprir a demanda de trabalho.

"Em 2008, chegamos a um ponto razoável [no número de servidores]. De lá para cá, a perda é grande, são 300 auditores a menos. Então o que fizemos este ano foi remanejar pessoas de uma área para outra. Por exemplo, na área que cuida de energia, petróleo e gás, tendo em vista intensificar as auditorias e os trabalhos de corregedoria na Petrobras, deslocamos servidores dos mais diversos setores para esse setor", relatou Hage.

 

Estatais
Questionado sobre as principais conquistas que a CGU teve durante a sua passagem como ministro, Hage afirmou que, atualmente, o órgão consegue "antecipar as condutas ilícitas nas licitações" com a criação do setor "Observartório da despesa pública". Esta divisão da CGU cruza bancos de dados de setores governamentais.

O ministro lamentou o fato de empresas estatais não terem aderido à análise desses dados. Hage explicou que as estatais possuem sistemas próprios de licitação.

"É uma pena que as empresas estatais não participem desses bancos de dados. É preciso agora, numa nova etapa, trazê-las para o foco do controle, porque atualmente elas têm sistemas de licitação próprios, no caso da Petrobras. Não utilizam os sistemas corporativos do governo, o que faz com que elas fiquem fora do alcance dessas atividades", lamentou o ministro demissionário.

Dia 18/09/2014

O Ministro da CGU afirmou que enfrenta situação de 'penúria orçamentária'

Segundo Jorge Hage, restrição compromete pagamento de água e luz.
Orçamento da CGU foi valorizado, argumenta Ministério do Planejamento.

Fabiano Costa *Do G1, em Brasília

 

Responsável pelo combate à corrupção no governo federal, o ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Jorge Hage, afirmou nesta quinta-feira (18) ao G1 que a redução de R$ 7,3 milhões no orçamento do órgão em 2014, em relação ao ano passado, gerou uma situação de "penúria orçamentária" na pasta.

Segundo o ministro, o corte no orçamento comprometeu o pagamento de despesas básicas, como água, luz e telefone, além de diárias e passagens aos auditores encarregados de fiscalizar a aplicação dos recursos federais no país, o que, afirmou, pode dificultar a identificação de eventuais irregularidades na administração pública.

Nesta semana, o Sindicato Nacional dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle (Unacom Sindical) promoveu em Brasília e em 14 estados atos de protesto contra o "enfraquecimento" da CGU. Em Brasília, cerca de 25 servidores se reuniram nesta quinta em frente à sede do órgão para reivindicar a liberação de verbas para o custeio dos serviços essenciais.

O ministro Jorge Hage, da CGU (Foto: Antonio Cruz /
Agência Brasil)

"É evidente que, quanto menos fiscalização, o risco de desvios é maior. Estamos maximizando a possibilidade de atuar na fase de penúria orçamentária concentrando as auditorias em órgãos federais e em municípios próximos às capitais. É questão de racionalizar para fazer o máximo possível com os recursos", disse Hage ao G1.

Entre as atribuições da CGU, está o combate à corrupção no serviço público federal, a auditoria pública e a aplicação das ferramentas de transparência. O órgão também exerce o papel de corregedor e ouvidor do governo federal, além de garantir o acesso às informações públicas.

Nesta semana, no horário eleitoral da televisão, o programa da presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, mencionou a CGU ao se referir às ações de combate à corrupção nos governos dela e do antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. O programa lembrou que o órgão ganhou status de ministério e afirmou que, em razão do trabalho da CGU, 4.797 servidores federais foram expulsos por terem cometido algum tipo de irregularidade.

Em 2013, segundo a assessoria do órgão, a CGU recebeu R$ 84,8 milhões para custear as despesas de custeio, que não contabilizam os gastos para o pagamento do salário dos servidores. Neste ano, em razão de um corte determinado pelo Ministério do Planejamento, o orçamento da pasta foi reduzido para R$ 77,5 milhões.

De acordo com Jorge Hage, o déficit nas contas da CGU em 2014 já alcançou R$ 17 milhões. O ministro afirmou que, somente para cobrir as despesas básicas até o final do ano, a pasta necessitaria de uma suplementação de R$ 12 milhões. "Alertamos o Planejamento que [o orçamento aprovado para 2014] não seria suficiente para pagar as contas até o final do ano", desabafou Hage.

É evidente que, quanto menos fiscalização, o risco de desvios é maior. Estamos maximizando a possibilidade de atuar na fase de penúria orçamentária concentrando as auditorias em órgãos federais e em municípios próximos às capitais. É questão de racionalizar para fazer o máximo possível com os recursos."

Jorge Hage, ministro-chefe da Controladoria Geral da União (CGU)

Ministério do Planejamento
Procurado pelo G1, o Ministério do Planejamento, responsável pelo orçamento federal, informou que, apesar do corte de R$ 44 bilhões no orçamento deste ano, a CGU, assim como os ministérios da Saúde e Educação, não sofreu contingenciamento.

A pasta destacou ainda que o concurso atual para o cargo de analista de finanças e controle foi aberto para 250 vagas, e que já foram chamados 329 servidores. Segundo o Planejamento, os gastos de pessoal da CGU triplicaram em termos reais entre 2004 e 2014 e a quantidade de servidores cresceu no período 31,5%.

"A CGU não é o único órgão do governo federal responsável pelo combate à corrupção. A Policia Federal é tão importante quanto a CGU nessa atividade. Ambos os órgãos foram muito valorizados: orçamentariamente, em quantidade de servidores e remuneração", informou a assessoria da pasta.

Redução das fiscalizações
O ministro Jorge Hage diz que, devido à falta de recursos, teve de buscar alternativas para não interromper totalmente as atividades de fiscalização do órgão. Uma das medidas tomadas por Hage para se adaptar ao orçamento foi reduzir os sorteios de municípios que são auditados pelo órgão.

Em regra, informou o ministro, a CGU promovia de três a quatro sorteios por ano. Em cada um deles, é definida aleatoriamente uma relação de 60 municípios que têm as contas devassadas pelos auditores do órgão. Com a crise financeira, a CGU promoveu neste ano apenas um sorteio.

A CGU não é o único órgão do governo federal responsável pelo combate à corrupção. A Polícia Federal é tão importante quanto a CGU nessa atividade. Ambos os órgãos foram muito valorizados: orçamentariamente, em quantidade de servidores e remuneração."

Ministério do Planejamento

Outra solução para tentar contornar a falta de dinheiro, segundo o ministro, foi priorizar as auditorias nos municípios localizados próximo às regiões metropolitanas. Como tem escritórios regionais nas capitais dos estados, a CGU tem conseguido economizar com o pagamento de diárias e passagens ao enviar seus auditores aos municípios localizados nas imediações das superintendências.

"São as formas que estamos usando para enfrentar a crise orçamentária que nos foi imposta", observou Hage.

Para o presidente do Sindicato Nacional dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle (Unacon Sindical), Rudinei Marques, os cortes orçamentários na CGU estão sucateando o órgão encarregado de fazer o controle interno do governo federal.

O dirigente da entidade que representa os servidores da CGU afirma que não é possível o órgão executar suas atribuições de controle da administração pública sem dinheiro para despesas básicas, como o pagamento de diárias e passagens para os auditores que fiscalizam a aplicação dos recursos federais.

"Não dá para fazer um trabalho de combate à corrupção à distância. Tem que ir lá e entender o que aconteceu, se o recurso foi ou não aplicado. Isso envolve deslocamento, diárias. Sem isso, não tem como a gente cumprir nossa missão institucional", argumentou Marques, organizador do Dia Nacional de Protestos para o Fortalecimento da CGU.

Falta de funcionários
Os servidores da CGU também reivindicam a contratação de novos funcionários. O ministro Jorge Hage reconhece que, nos últimos seis anos, o quadro de servidores da pasta perdeu cerca de 300 servidores.

Segundo ele, parte desses servidores se aposentou e o restante trocou o órgão por oportunidades profissionais com salários maiores. Atualmente, a CGU tem 2.327 funcionários.

O ministro relata que, embora existam 300 pessoas aprovadas em concurso prontas para serem contratadas, a junta orçamentária do Ministério do Planejamento autorizou a convocação de somente 30. A validade do concurso, disse Hage, expira em novembro deste ano.

"A esta altura, não acredito em nenhuma mudança, já que a junta orçamentária do governo não acatou os nossos pedidos", afirmou.

Colaborou Filipe Matoso, do G1, em Brasília