ESTAGNAÇÃO SALARIAL AGRAVA A DESIGUALDADE ENTRE RICOS E POBRES, DIZ A OIT

10/12/2014 - UGT

 

A estagnação dos salários nos países desenvolvidos apesar do contínuo aumento da produtividade confirma que uma parte cada vez maior do rendimento é arrecadada pela classe capitalista enquanto que a percentagem que os trabalhadores recebem continua a diminuir. Isto é resultado da concorrência empresarial mesquinha e não da mão de obra barata da China, assegura a Organização Internacional do Trabalho neste relatório, publicado na sexta-feira.

 

Os salários médios dos países desenvolvidos cresceram apenas 0,4 por cento desde o ano 2009, apesar de um aumento de 5,3 por cento na produtividade dos trabalhadores. A nível mundial, os salários estão a convergir lentamente em baixa, fechando a brecha com os países pobres. O crescimento dos salários nas economias desenvolvidas foi de 0,1 por cento em 2012 e 0,2 por cento em 2013, enquanto as economias em desenvolvimento registaram aumentos de 6,7 por cento e 5,9 por cento respetivamente.

 

Na Grécia, Irlanda, Itália, Japão, Espanha e Grã-Bretanha, os salários reais em 2013 caíram abaixo dos níveis de 2007. A Itália e o Reino Unido tiveram um período sem precedentes de queda dos salários reais. Em particular, de acordo com a Comissão de Salários, os salários britânicos caíram de forma mais aguda do que em qualquer outro momento desde que começaram os registos em 1964. Nos dois países avançados com maior desigualdade de rendimentos, a Espanha e os Estados Unidos, a perda de empregos e os cortes salariais representam quase todo o aumento da desigualdade.

 

A desigualdade aumenta

Mas o facto mais devastador do relatório é o seguinte: “Em geral, no grupo das economias desenvolvidas, o crescimento do salário real está aquém do crescimento da produtividade laboral no período 1999 a 2013”. Isto significa que ao longo deste período de 14 anos, a proporção do rendimento nacional que vai para a classe trabalhadora foi reduzido, enquanto a proporção do rendimento que vai para o 0,1 por mais cento rico aumentou de maneira constante.

 

O relatório da OIT aponta alguns perigos nas políticas que se estão a aplicar na Europa: “Se muitos países com estreitos vínculos económicos ou dentro de uma área geográfica grande (como a União Europeia) continuarem a impor uma política de “moderação salarial” simultaneamente, o resultado será provavelmente um défice na procura agregada...” Por outras palavras, ao reduzir os salários suprime-se o consumo e ficam menos compradores de bens o que aumenta mais o desemprego e potencia a deflação.

 

Segundo a OIT, a crescente brecha entre os salários e a produtividade significa que as famílias estão a receber uma “proporção menor do crescimento económico, enquanto os donos do capital estão a lucrar mais”. Esta análise faz eco de um debate público deste ano, em parte impulsionado pelo livro de Thomas Piketty “O Capital no século XXI”, que centra a atenção no aumento da desigualdade nas últimas três décadas que aceleraram a concentração da riqueza no 0,01 por cento da população.

 

“A estagnação dos salários deve ser abordada como uma questão de justiça e de crescimento económico”, diz a OIT. “Devido à desigualdade global ser impulsionada significativamente pela desigualdade salarial, são precisas políticas do mercado de trabalho que lhe façam frente”.

 

O crescimento dos salários nas economias emergentes ajudou a empurrar para cima a média mundial em 2 por cento em 2013 e 2,2 por cento em 2012, abaixo dos 3 por cento de antes da crise financeira. Mas entre as nações emergentes houve grandes variações regionais: A Ásia teve um crescimento de 6 por cento em 2013, face a 0,8 por cento na América Latina e nas Caraíbas. Os salários reais na região de Ásia Pacífico são agora 2,4 vezes mais altos do que eram em 1999, revelam os dados da OIT.