Distribuição de remédios tem atrasos e falhas

21 de novembro de 2013 | 2h 02

Fabiana Cambricoli - O Estado de S.Paulo

Laboratório farmacêutico oficial do governo do Estado, a Fundação para o Remédio Popular (Furp) deixou de entregar neste ano 68 milhões de unidades de pelo menos sete medicamentos solicitados pela Prefeitura de São Paulo para abastecer as farmácias das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da capital. O volume representa 49% das 138 milhões de unidades pedidas pela administração municipal desses produtos, que incluem remédios usados no tratamento de diabetes, hipertensão e infecções.

Vinculada à Secretaria de Estado da Saúde, a Furp é a única responsável por fornecer 28 diferentes tipos de medicamentos para a Prefeitura. Os medicamentos ofertados pela rede pública são distribuídos de forma gratuita mediante a apresentação de receita de médicos do sistema público ou privado.

Com o atraso na entrega dos remédios, agravado no segundo semestre deste ano, o estoque de muitas UBSs se esgotou, e os pacientes já enfrentam dificuldades para encontrar os medicamentos nas farmácias dos postos de saúde.

Na UBS Jardim Peri, na zona norte da capital, três itens da lista estão em falta há pelo menos dois meses. São eles: cefalexina, antibiótico usado no combate a infecções que atingem dentes, sistema urinário e órgãos do aparelho respiratório; glibenclamida, usado no tratamento de diabetes; e metildopa, indicado para o controle da hipertensão arterial.

Com um processo infeccioso nos dentes, o eletricista Ozéas Gomes da Costa, de 60 anos, se viu obrigado a comprar a cefalexina prescrita pelo médico, após tentar, sem sucesso, retirá-la gratuitamente em várias farmácias da rede pública. "O pior é que, quando você não acha em um lugar, geralmente está em falta na cidade toda. Antes de vir para cá, já tinha passado em dois postos da região e eles também não tinham", contou ele, após receber nova negativa na unidade do Jardim Peri, na quinta-feira passada.

Antibióticos. A falta de cefalexina se agravou a partir de julho, quando a Furp passou a entregar mensalmente entre 200 mil e 300 mil unidades de um total de 1,3 milhão de cápsulas solicitadas todos os meses.

Na época, a Amoxicilina, outro antibiótico fornecido pela Furp e usado no tratamento de infecções muito comuns na população, como a sinusite e a otite, já estava com falhas na entrega havia seis meses. A demanda mensal do medicamento é de 3 milhões de comprimidos, mas entre janeiro e outubro, apenas 15,3 milhões das 30 milhões de unidades pedidas foram entregues pelo Estado.

O desabastecimento fez a Secretaria Municipal da Saúde comprar, no início deste mês, 7,6 milhões de comprimidos do medicamento, em um gasto total de R$ 384 mil, que terá de se repetir mensalmente caso a Furp continue a atrasar a entrega dos remédios. O valor representa um gasto extra para os cofres municipais, uma vez que a Prefeitura não paga nada à Furp pelos medicamentos entregues. Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, atualmente o laboratório fornece medicamentos gratuitamente ao Município como contrapartida do Estado dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).

Problemas pontuais. Questionada sobre as falhas na entrega de medicamentos, a Furp afirmou que "eventuais atrasos ocorreram por problemas pontuais relacionados ao processo produtivo, como a falta de alguns insumos ou material para embalagens dos medicamentos e eventuais quebras de equipamentos de produção". Segundo o laboratório, os problemas já estão sendo solucionados e as entregas deverão ser normalizadas até o início do próximo ano.

O laboratório diz que entregou 95,3% do total de unidades solicitadas pelo Município de janeiro a outubro, "até mesmo, em alguns casos, com antecipação na data de entrega".

O órgão afirmou também que "cabe às prefeituras abastecerem seus postos de saúde com medicamentos básicos" e que os municípios têm autonomia para comprar de qualquer laboratório os remédios necessários. A Furp não informou se os problemas no processo de fabricação dos medicamentos afetam a distribuição em outros municípios. O laboratório é responsável por fornecer remédios para 598 cidades paulistas.