Dirceu: o 'rei da cela'

Acostumado a dar ordens, ex-ministro da Casa Civil organiza temas para debates, além de horários para leitura, exercícios e jogos; hipocondríaco, era ele quem cuidava do horário dos remédios de Genoino

21 de novembro de 2013 | 20h 59

Vera Rosa - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Acostumado a dar ordens, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu impõe a disciplina na prisão. Levanta bem cedo, faz ginástica, organiza temas para "debates" e virou o "rei da cela". É ele o mandachuva que passa as tarefas para os companheiros e decreta a hora de fazer exercícios, de ler, de caminhar e jogar conversa fora.

 

Na manhã desta quinta-feira, 21, antes da saída do ex-presidente do PT José Genoino - que passou mal e foi hospitalizado -, Dirceu deu voz de comando a Delúbio Soares, ex-tesoureiro do partido. Aficcionado por limpeza, ele pegou um balde de água, sabão e vassoura e puxou Delúbio para ajudá-lo na faxina na cela "S 13", número do PT.

"A gente chega lá e sai triste com a situação, mas também motivado, porque meu pai não se entrega. É um guerreiro", afirmou o deputado Zeca Dirceu (PT-PR), filho do ex-ministro.

Quem vai visitar Dirceu e seus companheiros tem a impressão de que está num quartel. A sala de visitas é modesta, com mesa e cadeiras, e todos vestem roupas brancas. No Centro Penitenciário da Papuda, a cela que abriga os condenados do PT foi a cantina do presídio, hoje reformada.

Até esta quinta era Dirceu, hipocondríaco, quem cuidava do horário dos remédios de Genoino, conferia se ele estava se alimentando direito e procurava animá-lo.

"A Dilma defendeu você", disse ele ao ex-presidente do PT, na noite de quarta-feira, numa referência à entrevista na qual a presidente Dilma Rousseff afirmou estar preocupada com a saúde do amigo petista.

No manual de auto-ajuda de Dirceu, o importante é manter "a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo". Para se distrair no cárcere, o ex-chefe da Casa Civil do governo Lula está lendo "O Capital e suas Metamorfoses", do economista Luiz Gonzaga Belluzzo. "O ensaio é uma tentativa de resgatar Karl Marx como pensador da prisão a que ele foi submetido ao longo do século XX", definiu o autor.

Depois de ler, Dirceu gosta de saber a opinião dos companheiros de cela - como Jacinto Lamas, ex-tesoureiro do PL (hoje PR) e Romeu Queiroz, ex-deputado do PTB - sobre as eleições de 2014 e os rumos da política.

COLABOROU ANDREZA MATAIS