Devemos aprender a conviver em paz desde a infância.

Ataque em Paris é contra todo o Ocidente e sua liberdade de expressão. Ou: Pelo direito de blasfemar!

 

Um atentado a tiros na sede da revista de humor “Charlie Hedbo” deixou doze mortos em Paris nesta terça e abalou o mundo todo. A revista já tinha atraído a fúria dos fanáticos muçulmanos ao publicar, em 2011, uma charge de Maomé. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, reagiu condenando o ataque terrorista e expressou solidariedade com a França na luta contra o terrorismo. “Os assassinatos em Paris são revoltantes. Estamos ao lado do povo francês na luta contra o terrorismo e na defesa da liberdade de imprensa”, declarou Cameron em sua conta no Twitter.

E essa é basicamente a luta em jogo: de um lado, aqueles que defendem a liberdade de expressão, o império das leis, a democracia, ou seja, as principais conquistas institucionais que foram produzidas basicamente no mundo ocidental; do outro, fanáticos que ainda vivem na Idade das Trevas, nem mesmo na real Idade Média, mas naquela caricatural criada pela narrativa anticatólica. Afinal, nem mesmo mais tarde, durante o período mais sombrio da Inquisição espanhola, o Ocidente viveu mergulhado no mesmo tipo de atraso e autoritarismo que muitos países islâmicos vivem hoje, em pleno século XXI.

Com atos terroristas não pode haver contemporização. A reação de todos os defensores da democracia e da liberdade deve ser enérgica e veemente. Os fanáticos do Islã não aceitam o contraditório, e se sentem no direito de simplesmente eliminar aquele que ousa “ofender” sua fé religiosa. Claro que os fanáticos são minoria, mas não podemos nos enganar: tal ato abominável encontrará aprovação em muito mais gente do que deveria. Não são poucos aqueles que julgam que a revista “pediu” isso ao enfrentar o islamismo, assim como muitos consideraram que o ataque às torres gêmeas em 11 de setembro foi uma retaliação “justa”.

O pior é que tal opinião não é exclusividade dos muçulmanos. Mesmo no Ocidente, há aqueles que pensam assim, que condenam a própria “ousadia” da revista em vez de defender a ampla e quase irrestrita liberdade de expressão típica dos países civilizados, mesmo sabendo que, com isso, crenças religiosas serão atacadas ou mesmo ridicularizadas. Faz parte do ambiente de tolerância ter de aceitar que o outro pode não só discordar, como abominar as suas crenças. Não resolvemos tais dilemas no tiro, e sim no diálogo ou na salutar segregação voluntária e pacífica.

O caso nos remete ao das charges ironizando Maomé na Dinamarca. À época, escrevi um texto sobre o assunto, que reproduzo abaixo:

Dinamarca e Fanatismo

“Não é possível discutir racionalmente com alguém que prefere matar-nos a ser convencido pelos nossos argumentos.” (Karl Popper)

O artigo vem um pouco atrasado, para falar das charges de Maomé e da reação alucinada que geraram entre muçulmanos fanáticos. Mas não tem problema. Afinal, a reação dos extremistas também veio bastante atrasada. Na verdade, levaram meses para mostrar revolta insana com uns simples desenhos, curiosamente em um momento que muito interessava ao Irã. O que está por trás dessa suposta loucura? Quem tem razão nesse episódio?

Muitas pessoas, talvez por medo do Islã ou por um relativismo moral hipócrita, condenaram o próprio Ocidente e sua liberdade de expressão. Querem voltar aos tempos em que era proibido ir contra a fé e a religião. Acham que os jornais não tinham nada que desrespeitar as crenças dos muçulmanos. Essas mesmas pessoas nada falam quando o lado de lá diz que Israel deve ser exterminado do mapa, ou que o Holocausto nem existiu.

Também não fazem coro contrário quando filmes ou charges ironizam a figura de Cristo. O respeito da fé acima de tudo, aparentemente, tem dois pesos e duas medidas, como todas as demais formas de relativismo. É só o Ocidente que tem obrigação de respeitar a fé do Oriente. Este pode declarar a Jihad contra nós, pregando a morte dos infiéis, sob um silêncio complacente até mesmo dos “moderados”, que não tem problema algum.

Uma das possíveis causas do fanatismo islâmico pode ser encontrada no maior “achatamento” do mundo, com os avanços tecnológicos reduzindo a distância entre os povos. É a opinião do colunista Thomas Friedman, em seu livro O Mundo é Plano. O autor defende a tese de que, com a maior globalização e o progresso da internet, não é mais possível fechar os olhos dos muçulmanos para a realidade mundo afora. Fica mais evidente o atraso deles, o quanto ficaram para trás em relação ao Ocidente.

Vários terroristas, em suas declarações, deixam claro esse ressentimento, uma busca de vingar a humilhação perante o sucesso ocidental. Essas paixões viram um prato cheio para o oportunismo de líderes inescrupulosos, que abusam de bodes expiatórios externos para justificarem as atrocidades domésticas.

Com uma população extremamente jovem, economia dependente do “ouro negro” e sem geração de novos empregos, ausência de liberdades individuais e miséria crescente visível pelo “choque de civilizações”, há um ambiente fértil para uma fábrica de terroristas fanáticos. Não há como lutar contra isso usando apenas a razão, afinal, tamanho fanatismo cria uma barreira intransponível à lógica. Estamos diante de um caso claro de rigidez cognitiva.

A cura de tal doença levará tempo. Será preciso democratizar as atuais teocracias, separar a fé religiosa do estado, aumentar o grau de liberdade individual, reduzir a dependência econômica do petróleo etc. Nada disso será da noite para o dia. Mas é fundamental, para tanto, que os formadores de opinião não se curvem diante do medo ou da hipocrisia.

Achar que o problema está na liberdade de expressão ocidental, em vez de no fanatismo religioso dos muçulmanos, é trocar totalmente as bolas. O mundo necessita de um julgamento objetivo sobre esses acontecimentos, para o bem dos próprios muçulmanos que não compactuam com as barbaridades perpetradas em nome do seu Deus. Apelar ao relativismo moral e culpar a liberdade de imprensa dinamarquesa pela reação dos fanáticos é assassinar o bom senso. Devemos ser livres até mesmo para blasfemar!

Marcelo, um oficial do reino da Dinamarca na mais famosa peça de Shakespeare, afirma que “há algo de podre no Estado da Dinamarca”, ao ver, espantado, o fantasma do Rei Hamlet. Eram outros tempos. Talvez no começo do século XVII havia mesmo algo de podre no reino da Dinamarca. Mas, atualmente, o país conta com ampla liberdade individual. A imprensa é livre, a economia é livre, e a Dinamarca está na oitava posição no ranking de liberdade econômica do Heritage. A renda per capita beira os US$ 40 mil.

Trata-se de um país avançado em todos os sentidos. O jornal dinamarquês tem total direito de desenhar uma charge de quem quiser, seja de Maomé, Jesus, Buda ou do Papa. Os muçulmanos fanáticos é que não têm direito de incendiar embaixadas e matar gente por causa disso. Se Shakespeare vivesse nos dias atuais, provavelmente escreveria que há algo de muito podre nas teocracias islâmicas…  

Rodrigo Constantino