Brasil ainda tem processos industriais que desrespeitam meio ambiente e população

Segunda-feira, 15/12/2014, às 17:09, por Amelia Gonzalez

Endosulfan é um inseticida potente, altamente tóxico, que age no sistema nervoso de insetos e de humanos. Já foi banido em 62 nações, embora continue sendo usado em países como Índia e Austrália. Aqui no Brasil, a Anvisa proíbe o uso dessa substância desde 2010, em norma que também exige sua não comercialização desde 2013.

No entanto, um estudo realizado por pesquisadores do Instituto Evandro Chagas (IEC) detectou a presença de endosulfan no fundo de igarapés nas cidades paraenses de Acará, Moju, São Domingos do Capim e Tomé Açu. O veneno foi, e possivelmente ainda é utilizado largamente pela indústria do dendê na região, afetando sobretudo populações quilombolas.

Quem me contou isso foi Marcelo Lima, pesquisador e especialista em toxicologia ambiental do IEC, com quem conversei longamente na semana passada. Eu queria saber dele em que pé estão as investigações sobre o vazamento de caulim no igarapé Curuperê, em Barcarena, também no Pará. É um crime ambiental causado pela indústria que beneficia bauxita na região. Aconteceu pela primeira vez no início do século mas, de lá para cá, novos vazamentos têm sido constatados .

Marcelo respondeu-me sobre o vazamento de caulim e nossa conversa se prolongou. A conclusão é que há um processo industrial no Brasil que ainda desrespeita o meio ambiente e as pessoas que moram no entorno – sobretudo no delta amazônico, onde há muitas fábricas devido à sua enormidade de água. Se você, leitor, não se surpreende com isso, devo dizer que eu também não. A gente se acostuma com esses abusos, mas não deveríamos nos acostumar. Por isso acho importante levantar a questão, informar e, de certa forma, dar apoio a quem está na ponta da cadeia, como a equipe do IEC e de outros institutos de análises que tentam, de forma legal, denunciar os crimes para que alguma solução seja tomada. Abaixo, a íntegra da conversa com o professor Marcelo Lima.

A primeira vez que noticiei um vazamento de caulim em igarapé de Barcarena foi em 2009, no Razão Social*. A comunidade se organizou de lá para cá, há hoje um Fórum na cidade, mas recentemente li sobre outro vazamento na região. O senhor tem acompanhado esse caso, sabe que a empresa Imerys já foi penalizada. Mudou alguma coisa?
Marcelo Lima – Quando a Imerys deixou vazar caulim no igarapé pela primeira vez ela assumiu vários compromissos com o Ministério Público. Uma das providências foi construir um duto que passa por cima do igarapé e vai até a Pará Pigmentos, outra empresa do grupo que fica a cerca de 3 km da Imerys. Lá, os efluentes se juntam e são lançados, pelo tal duto, uma espécie de emissário submarino, no meio do Rio Pará.

Mas isso resolve o problema?
Marcelo Lima – A diferença é que o Rio Pará é quase um oceano, de grande volume, o efluente se dilui mais, só isso. Foi uma mudança de estratégia da empresa, mas ela tinha se comprometido em mudar seu processo industrial. Só que de 2007 para cá, quando foi feito esse compromisso, houve mais seis vazamentos de caulim que acabaram atingindo novamente o Curuperê. Mais recentemente, em maio, houve ainda outro vazamento, dessa vez uma enorme carga, provocado por uma fissura que ocorreu numa das bacias de efluentes. Demorou mais de uma semana até que fosse controlado.

Já vi fotos desses vazamentos, o igarapé fica todo branco. Qual o prejuízo causado ao meio ambiente, às pessoas?
Marcelo Lima – Existe um passivo de acúmulo de substâncias do caulim que está no fundo desses igarapés.  Mesmo que nenhum outro vazamento ocorra, isso não garante que alguma coisa acabe liberando esse caulim.  Tem um debate muito forte sobre o mal que essa substância causa, porque a empresa diz que o caulim é uma pasta não tóxica. Mas a questão é que não é o caulim, e sim os efluentes do caulim, resíduos do processo industrial, que saem muito ácidos da fábrica, com elevados níveis de alumínio, chumbo, bário. Esses componentes podem causar danos à vida aquática e aos humanos.

As pessoas que moram à beira do rio bebem aquela água?
Marcelo Lima – Quando se pergunta, eles dizem que não, mas um ou outro acaba soltando, dizendo que bebem. De qualquer forma, é uma água usada para lazer, onde eles tomam banho. Em 2006, antes mesmo do primeiro acidente, eu fiz um relatório onde alertei para o fato de que ter uma bacia de efluentes industriais a 50 metros da população é um grande risco. Ou se tira a população dali, ou se tira a fábrica.

Mas Barcarena é um polo industrial, não?
Marcelo Lima – Sim. Com o recurso que a empresa teve que liberar por determinação do Ministério Público estamos fazendo uma dosagem toxicológica das pessoas da região. Não se pode dizer que existe só um contaminante porque Barcarena é um complexo, com várias indústrias. É um pouso de potenciais problemas, população humana misturada com fábricas. O IEC hoje é uma referência nesses estudos, somos o principal laboratório na área de contaminantes orgânicos e inorgânicos do país e temos uma sessão de meio ambiente que foi criada em 1992, logo após a Rio-92. Na época era um grande tabu: ter necessidade de uma sessão de meio ambiente na área de Saúde. Mas a sessão foi criada com uma grande pesquisa que até hoje não terminamos: do contágio de mercúrio na Amazônia.

O que vem dificultando esse estudo? 
Marcelo Lima – A questão é que o Brasil não tem referenciais, não se fez até hoje um inquérito do país para entender qual o nível normal de acúmulo. Isso nos obriga a buscar referências em outros países, que nem sempre refletem a nossa realidade e pode causar alarmismos desnecessários. Mas é comprovado que o nível de mercúrio médio na região da Amazônia é maior do que qualquer outro do mundo. A diferença é que nosso padrão de normalidade é diferente de outros países. Na Europa, por exemplo, eles ficam apavorados quando têm 2ppm (partículas por milhão), mas aqui a nossa média é acima de 10ppm com frequência.

A ex-candidata à presidência Marina Silva, por exemplo, desenvolveu uma série de sintomas devido à exposição ao mercúrio durante o tempo que foi seringueira...
Marcelo Lima – Como pesquisador eu não sei dizer se ela foi contaminada ou se tem no organismo uma quantidade de mercúrio igual à de toda população do Acre. A questão é que enquanto não se mudam esses processos industriais vai continuar havendo poluição ambiental. Tem uma aluna minha do mestrado que está conduzindo uma pesquisa em Barcarena que vai ficar pronta por esses dias sobre poluentes orgânicos nos rios da cidade, e vem muita surpresa aí. Mas, no Brasil, não é fácil fazer esse tipo de análise de contaminantes, por isso a notificação de uma exposição ambiental é quase inexistente. Notifica-se malária, dengue, mas não há notificação ambiental. Temos tido um grande apoio do Ministério da Saúde, mas só o dinheiro da Saúde para resolver os problemas todos envolvendo contaminantes não é suficiente.

Barcarena, então, deve ser um foco de poluição ambiental...
Marcelo Lima – A cidade fica no delta amazônico, o volume de águas é gigantesco, e as empresas jogam seus resíduos sem tratamento nessa água, ali eles ficam diluídos. Mas quero lhe dizer que hoje já há sinais de que esse ambiente aqui não está mais suportando. Há ainda o grande desmatamento na região do Mato Grosso que está invadindo o Pará. Se olhar o mapa, o desmatamento está justamente na área das nascentes dos grandes rios amazônicos, portanto a indústria de soja, dendê, está justamente nessas áreas. E não é difícil dizer que estão usando agrotóxico direto. A indústria do dendê, por exemplo, é um problema aqui.

O que ela vem causando?
Marcelo Lima – O Ministério Público do Estado pediu que fizéssemos uma avaliação em populações tradicionais que estariam sendo afetadas pelo agrotóxico usado pela indústria do dendê em Mojum, Acará, São Domingos do Capim e Tomé Açu, todas cidades paraenses. No ano passado fizemos um trabalho preliminar e comprovamos a presença persistente de endosulfan no fundo dos igarapés. Estive no local e é um cenário triste, as populações quilombolas estão afogadas naquelas plantações de dendê. Elas comprometem o uso da água e uma série de outras coisas.

Aqui no Rio de Janeiro há um movimento tentando recuperar o Rio Carioca, que recebe uma enorme quantidade de esgoto, portanto de bactérias. O que precisa ser feito para tentar resolver esse tipo de situação, que deve ocorrer no país inteiro?
Marcelo Lima – Os investimentos em pesquisa ainda são poucos, precisam ser ampliados. Critico sobretudo as agências de fomento, que investem pouco aqui na Região Amazônica. O país precisa de muito mais gente olhando para isso, de tecnologia avançada para detectar o problema porque as indústrias geram poluentes dos mais diversos, e até que a gente consiga detectar demora. Hoje, temos aqui boom de algas, os rios estão cheios de bactérias que produzem toxinas. O IEC faz seu dever de casa, atende a saúde pública brasileira. Temos o único laboratório com nível de biosegurança 3 plus funcionando no país, por isso nós é que estamos manipulando o sangue para detectar se há vírus ebola. Mas temos potencial para fazer muito mais.