Bingo sorteava empreiteiras para obras em rodovias de SP, diz delator

Bingo sorteava empreiteiras para obras em rodovias de SP, diz delator

Edição do dia 18/04/2017

18/04/2017 

 

Empreiteiras combinavam o resultado e burlavam a lei de licitações.
Delação explica como funcionava o bingo da corrupção.

As delações da Odebrecht também mostraram como empreiteiras combinavam resultados e burlavam a lei de licitações em obras de rodovias paulistas. Era uma espécie de bingo da corrupção.

O diretor de contratos da Odebrecht, Roberto Cumplido, contou que os representantes das empreiteiras interessadas se reuniam antes das licitações e combinavam quem ia ganhar cada lote.

Foi o caso da obra de recuperação e melhorias na SP-255 num trecho de quase 40 quilômetros entre Araraquara e Boa Esperança do Sul, no interior de São Paulo. A obra era do governo do estado em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID.

No caso desse trecho da SP-255, a reunião foi em um prédio nos Jardins em São Paulo onde, na época, 2005, funcionava a sede do Sindicato da Indústria da Construção Pesada. Lá, executivos de mais de 20 empresas fizeram um sorteio. Como num bingo, cada construtora tinha um número. A sorteada ganhava a obra, informava o preço que seria apresentado na licitação e as outras construtoras, apenas para dar cobertura à vitoriosa, apresentavam na licitação preços sempre maiores.

Roberto Cumplido: Como se fosse aquele sorteio do bingo e saía um número, né, de 1 a 30. Quem estava com o número 1 era o primeiro. Quem estava com o número 2 era o segundo e quem estava com o número 3 era o terceiro. Ela poderia passar para o segundo se ela, de repente, o primeiro, a obra que saiu não fosse uma obra do interesse dela por algum motivo, e o segundo iria para o final da fila se aceitasse, e o primeiro ficava ali para a próxima que vinha a sair.

No bingo das empreiteiras, a Odebrecht ficou com a obra. O valor referência na licitação foi de R$ 36 milhões, mas a Odebrecht pediu mais de R$ 41 milhões. Tudo combinado com as outras empresas.

Roberto Cumplido: Então, eu sempre falava para eles: "Deem um preço acima de R$ 41,2 milhões". Da mesma maneira que eu pedi a essas empresas que me cobrissem, elas me pediram também cobertura em outras que eu, por acaso, estava habilitado.

Roberto Cumplido disse ainda que logo após a assinatura do contrato, em janeiro de 2006, foi procurado pelo então superintendente do DER Mário Rodrigues Júnior, que pediu o pagamento de 4% de propina sobre o valor da obra. E mais tarde o então diretor de uma das regionais do DER, Mário Augusto Fattori Boschiero, também pediu 1% de propina.

Tudo isso foi confirmado numa outra delação, a de Benedicto Júnior, diretor e chefe de Cumplido na Odebrecht.

Benedicto Júnior: Eu autorizei esses pagamentos. Nós encontramos pagamentos no ano de 2008, entre maio e julho de 2008 de R$ 900 mil e entre março e agosto de 2009, de R$ 731 mil, dedicados a esse projeto da SP-255.

Foi preciso ainda aprovar um aditivo, em abril de 2008 - um aumento de R$ 10 milhões ao valor inicial da obra. O contrato foi para mais de R$ 51 milhões. Para aprovar o aditivo, contam os delatores, os diretores do DER pediram mais propina: R$ 900 mil.

Benedicto Júnior: Naquela época não tinha o setor de operações estruturadas, mas foram feitos via caixa dois, com dinheiro ilícito, esses pagamentos indevidos a esses agentes públicos.

Procurador: Foram feitos em espécie?

Benedicto Júnior: Foram feitos em espécie, em São Paulo.

O Departamento de Estradas de Rodagem de São Paulo, responsável pela obra, declarou que todos os contratos do órgão foram aprovados pelo Tribunal de Contas do Estado. Também afirmou que não compactua com qualquer tipo de irregularidade e que, se for comprovada a participação de funcionários, eles devem ser julgados e punidos de acordo com a lei.

Mário Rodrigues Júnior não quis comentar. O Jornal Nacional não conseguiu contato com Mário Augusto Fattori Boschiero.