Auditoria aponta dívida da Santa Casa de SP em R$ 773 milhões

11/12/2014 12h03 - Atualizado em 11/12/2014 14h21

Investigação das contas aponta que crise é maior que a prevista.

Relatório anterior indicava que irmandade devia R$ 433,5 milhões.

Do G1 São Paulo

Uma auditoria independente verificou que a crise financeira da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo é maior do que a instituição havia anunciado. Segundo o levantamento, cujos dados o SPTV teve acesso, o montante devido é de R$ 773 milhões, 78% a mais que os R$ 433,5 milhões que constavam em relatório divulgado pela instituição em setembro.

A nova auditoria foi encomendada pela Secretaria Estadual da Saúde e aponta má gestão da Santa Casa. Dentre as irregularidades, o relatório indica a compra de materiais superfaturados, pagamento de super salários e fraudes em contratações de serviços.

Há situação irregular até na lavanderia. O preço contratado foi de menos de R$ 2 o quilo de roupa lavada, mas o valor praticado é de R$ 3. A instituição perde R$2,6 milhões por ano somente nesse contrato.

A maior dívida é com a folha de pagamento dos funcionários, estimada em R$ 114 milhões. A Santa Casa tem 11 mil empregados e administra quatro hospitais próprios e 27 unidades de saúde da capital e de Guarulhos. Em segundo lugar, a dívida com fornecedores: R$ 104 milhões.

David Uip, secretário estadual de Saúde, se reuniu com a direção da Santa Casa na manhã desta quinta-feira (11). Ao final do encontro, Uip afirmou a jornalistas que a dívida da instituição é de R$ 823 milhões. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, o valor é total e contabiliza, além do revelado pela auditoria, uma dívida que a Santa Casa tem com o governo.

Questionado se haverá novo repasse, Uip apenas afirmou que o governo buscará mecanismos para ajudar a instituição. “A Santa Casa é um hospital privado, particular e responsável pelo que está acontecendo. Nós estamos encaminhando à Promotoria Pública e ao Tribunal de Contas o que nós auditamos para que consiga criar um mecanismo que possibilite ajudar a Santa Casa entendendo que isso deverá ser divido entre os três poderes”, disse David Uip.

O superintendente da Instituição, Irineu Massaia, pediu a colaboração dos funcionários, e disse que o atraso nos pagamentos deve ser resolvido em breve. “O que a gente pede novamente aos nossos funcionários que têm se esmerado, não só nesse momento como em outros em que faltaram medicamentos e estrutura, para manter qualidade de atendimento. Rapidamente resolveremos o problema dos funcionários que, no momento, é a nossa prioridade”, afirmou Massaia.

Em evento em Charqueada, no interior de São Paulo, o governador Geraldo Alckmin disse que o Estado continuará ajudando a irmandade. Ele acrescentou que, em quatro anos, o governo repassou R$ 500 milhões para a Santa Casa.

Início da crise
Em julho, o hospital central deixou de atender casos de emergência e urgências  por causa de dívidas com fornecedores. O problema fez com que a instituição não conseguisse comprar material e medicamentos. O pronto-socorro foi reaberto um dia depois, após negociações com o estado e governo federal.

Após o fechamento, uma primeira auditoria foi realizada por uma comissão técnica instituída pela Secretaria de Estado da Saúde, com representantes do Ministério da Saúde, da Secretaria Municipal de Saúde e do Conselho Estadual de saúde.

Na época, o relatório apontava, além da dívida de R$ 433,5 milhões, que o patrimônio líquido da instituição - que não inclui os imóveis - tinha caído 98,5% em quatro anos, e passou de R$ 220,3 milhões em 2009 para R$ 323 mil em 2013.

Ainda por conta da crise, em novembro, a Santa Casa transferiu para o Estado os hospitais de Franco da Rocha, de Francisco Morato, Penitenciário, em São Paulo, e Geral de Guarulhos, além do Centro Integral em Saúde Mental de Franco da Rocha.

Atualmente a instituição é responsável pelo Hospital Central e o Santa Isabel, os dois em Santa Cecília, o Hospital Municipal São Luiz Gonzaga e Hospital Dom Pedro II, ambos no Jaçanã, na Zona Norte da cidade.

13º salário
No dia 28 de novembro, conforme antecipou o G1, a crise afetou o pagamento do 13° salário nos hospitais gerenciados pela irmandade. A Santa Casa informou que negocia verba extra para efetuar os pagamentos, mas não há prazos para que eles aconteçam.

Em comunicado interno voltado para os funcionários, a direção afirma que as dificuldades “serão superadas em breve”, mas pede a "colaboração" de todos. Médicos e enfermeiros estão fora desta lista. O comunicado gerou revolta nos funcionários dos três hospitais administrados pela irmandade. Muitos temem não conseguir receber o salário referente ao mês de dezembro.

Acordo
Em reunião no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) nesta terça-feira (9), a Santa Casa informou que o atraso nos salários e no 13° foi ocasionado por falta de repasse de verba do governo, e se comprometeu a pagar todos os profissionais até sexta-feira (12). Caso não seja cumprido o acordo, os médicos prometem paralisar as atividades.

Em nota, a assessoria de imprensa da Santa Casa afirma que os salários do mês de novembro (vencimento no dia 5 de dezembro), 92% dos funcionários receberam o valor integral. A previsão é de que o salário dos 8% que faltaram seja pago ainda esta semana.

De acordo com a instituição, a prioridade foram os funcionários que recebem salários mais baixos. Sobre os 13º salários, foi paga uma parte da primeira parcela aos funcionários que recebem até R$ 3 mil. "Ainda não há previsão de quando será pago o valor restante nem para os que recebem acima de R$ 3 mil."

O Sindicato dos Médicos (Simesp) participará de nova reunião com a direção da instituição nesta quinta-feira (11), no MTE. O Simesp afirma que está acompanhando a situação e irá fiscalizar se os pagamentos foram efetuados, além de verificar se houve a quitação das multas previstas na convenção trabalhista.