Quando alguém se debruça sobre a história de São Paulo sente uma profunda perplexidade. Os episódios de grandeza e os ciclos de miséria se sucederam através dos séculos.

Foi fruto direto dos índios que ocupavam o planalto paulista. Estes conheciam e conviviam com João Ramalho, o português que habitava Santo André da Borda do Campo.

Os jesuítas chegaram mais tarde. Edificaram a pequena escola. O lugar, no alto da colina acima do Rio Tamanduateí, passou a ser chamado Pátio do Colégio.

Não conhecia o planalto as doenças tropicais. Seu clima era salubre. A distância do mar o tornava isento dos contatos com o mundo europeu. O paulista foi gerado na solidão.

O povoado era rude e rude seus habitantes. Desde os primórdios, lançaram-se a combater os castelhanos em nome dos reis de Portugal. A pé ou pelos rios alcançaram os extremos da América Setentrional.

Foram ao Paraguai e a Argentina e, na busca de índios para escravizar, lutaram asperamente com os padres da Companhia de Jesus. Não deram sossego aos jesuítas, aqui e nas mais distantes paragens.

Lançaram-se, sem temor, no interior das florestas. Cruzaram rios caudalosos. Estenderam os espaços físicos do Brasil. Com a descoberta de ouro, em Minas Gerais, lançaram-se à exploração do minério.

Foram mortos e humilhados. Recuaram. Inicia-se, a partir do ciclo do ouro, período dramático. Perde São Paulo sua condição de relevo. É lançada ao ostracismo.

Passaram-se os anos. A pobreza altiva permanecia imutável. A primeira reação, após a Independência do Brasil, dá-se com a criação da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Os trabalhos constituintes de 1823 apontam para os obstáculos à criação da primeira escola superior no Brasil independente. Regiões muito mais desenvolvidas pleiteavam o privilégio.

São Paulo – juntamente com Olinda – foi agraciada com a Academia de Direito. Alteram-se os costumes. Inicia-se uma nova etapa na vida da cidade.

Permanece provinciana e isolada, mas já recebe o impulso dos jovens originários dos mais distantes pontos do País. Alteram-se vagarosamente os traços urbanos.

A grande mudança ocorre com a chegada da imigração européia. Os italianos, particularmente, trouxeram novos costumes e formas de pensar. Foram encaminhados para as distantes terras do sertão.

Vieram para substituir os libertos de 1888. Aos poucos, foram chegando à cidade de São Paulo. Começaram surgir as grandes tecelagens e as pequenas fundições.

Uma ebulição social incessante começou a surgir. Os senhores das terras se assustaram. A perseguição ao estrangeiro ocorreu. As grandes greves, geradas nos aparelhos anarquistas, explodiram.

Nunca mais São Paulo deixou de gerar novidades sociais e políticas. Abriu seus espaços para a imigração interna e a todos os povos. Tornou-se a mais cosmopolita das cidades da América Latina.

A ninguém é perguntada a sua origem ou sua ascendência. Os nomes de família não importam em São Paulo. Vale a vontade de trabalhar e produzir.

Esta forma de agir e de pensar dos paulistanos contemporâneos levou à perda do estudo de sua História. Nada importa em São Paulo. Suas tradições se apagaram. 

Todos os dias se gera o novo em São Paulo. Uma gente indômita, crítica e, apesar da constante evolução, possui traços conservadores. São Paulo, em seus quatrocentos e sessenta anos, por vezes, mostra-se provinciana. Uma cidade aberta a todas as vocações.