Alemanha é referência no ensino profissionalizante

Maioria dos alunos do país está matriculada  em cursos técnicos que aliam educação na escola a estágio em empresas

21 de outubro de 2012 | 23h 00

Carlos Lordelo, de O Estado de S.Paulo

Dona da quarta maior economia do mundo, a Alemanha tem forte tradição na qualificação de mão de obra. Lá, a maioria dos alunos do ensino secundário superior - equivalente ao nosso ensino médio - está matriculada em cursos técnicos que utilizam o sistema dual de aprendizagem. O modelo alia a educação na escola profissionalizante a um estágio em alguma empresa, unindo instrução teórica e prática. Dessa combinação saem profissionais moldados às diferentes necessidades do mercado.

O esquema remonta à Idade Média, quando os aprendizes eram treinados por mestres nas corporações de ofício. Ganhou força com a industrialização do país, a partir da segunda metade do século 19. O modelo foi regulamentado em 1969. O Estado tomou as rédeas da qualificação dos trabalhadores e estabeleceu as diretrizes da formação dual.

Já no ensino secundário inferior - equivalente ao nosso ensino fundamental -, o currículo das escolas trabalha como temática transversal a introdução ao mundo do trabalho. Alunos chegam a estagiar em empresas para definir que carreira seguir. Cerca de 60% dos jovens optam por continuar os estudos em escolas profissionalizantes e atuar em ramos da indústria e do comércio.

Primeiro o estudante precisa ser recrutado pela companhia, que indica a escola que ele deve frequentar. As firmas assinam um contrato de aprendizagem com o estagiário e o treina para uma das 349 ocupações técnicas reconhecidas pelo governo. Em troca, o aluno ganha um terço de um salário de um profissional. A relação é monitorada pelas associações empresariais, por órgãos do governo e da sociedade civil.

O governo alemão diz que são muitas as vantagens do sistema. O setor privado garante mão de obra qualificada, reduz o custo de treinamento e vê crescer a produtividade. Os alunos saem dos cursos com boas perspectivas de carreira, instruídos para a prática profissional e com um certificado reconhecido.

Para Manfred Reiter, ex-coordenador de escolas profissionalizantes alemãs no exterior, o sistema é um dos responsáveis pela baixa taxa de desemprego entre os jovens com menos de 25 anos de seu país - 8,1% em agosto, ante uma média de 22,8% na zona do euro. "Os jovens daqui têm uma visão extraordinária dos cursos profissionalizantes."

Embora seja uma referência, o modelo dual não consegue ser replicado com eficiência e em larga escala em outros países, diz o professor Candido Gomes, pesquisador de sistemas educacionais da Universidade Católica de Brasília. "O sistema tem fortes raízes na tradição alemã de qualificação de trabalhadores."

Mesmo assim, a Alemanha exportou o sistema para escolas de outros países. A maior delas fica em São Paulo. Instalado desde 1982 no Colégio Humboldt, em Interlagos (zona sul), o Instituto de Formação Profissional Administrativa formou mais de 1,5 mil alunos em cursos técnicos. A experiência prática ocorre nas filiais de empresas alemãs em São Paulo e Santa Catarina.