‘Não me assusto com mais nada’, diz ministro-chefe da CGU

‘Não me assusto com mais nada’, diz ministro-chefe da CGU

Edição do dia 14/12/2014

14/12/2014 22h45 - Atualizado em 14/12/2014 23h32

Jorge Hage, que pediu demissão nesta semana, investigou o desvio de dinheiro público por 10 anos. Ele falou com exclusividade ao Fantástico.

 

Jorge Hage é ministro-chefe da Controladoria Geral da União, a CGU - um dos órgãos do governo responsável por combater a corrupção no país. Por mais de dez anos, ele investigou esquemas, cartéis, quadrilhas e escândalos e criou um verdadeiro mapa de casos de desvio de dinheiropúblico no Brasil. “A essa altura, após 12 anos, eu não me assusto mais com nada”, diz Hage.

O repórter Eduardo Faustini foi até Brasília para uma entrevista exclusiva com o ministro, que nesta semana pediu demissão.

Fantástico: O Brasil pode se livrar da corrupção ou pelo menos baixar bastante?
Jorge Hage: Baixar bastante o nível. Hoje os corruptos já passaram a pensar duas vezes antes de praticar o ato ilícito. Começou a acabar a impunidade. Já tem gente presa, já tem gente indo para a cadeia, na área administrativa nós já expulsamos da administração federal mais de cinco mil servidores, diretores, dirigentes. No site da CGU já tem mais de quatro mil empresas impedidas de contratar com o poder público ou suspensas temporariamente. E já tem mais de 2,5 mil ONGs impedidas de receber dinheiro de convênio, que era outro ralo por onde saía muito dinheiro.

Nesta semana a CPMI que investiga denúncias de corrupção na Petrobras apresentou o relatório final e não indiciou ninguém. Um dos casos investigados foi o da refinaria de Pasadena. Segundo o relator da CPMI, o deputado petista Marcos Maia, a compra da refinaria foi um negócio razoável para o Brasil, mas a conclusão da CGU é um pouco diferente.

“Também a partir de denúncias, passamos a investigar as condições da primeira e da segunda etapa da compra da refinaria de Pasadena. O relatório está concluído, foi concluído essa semana, a Petrobras já se manifestou sobre ele. Infelizmente não podemos aceitar a maioria das justificativas, estamos confirmando que houve prejuízo e estamos abrindo os processos contra os responsáveis”, afirma Hage.

O Fantástico teve acesso exclusivo a informações do relatório da CGU sobre o caso de Pasadena e confirmou que a CGU vai abrir processos contra uma dezena de funcionários de vários escalões da Petrobras.

O ministro também falou sobre o quadro "Cadê o dinheiro que estava aqui", em que o repórter Eduardo Faustini, o repórter secreto que não pode mostrar o rosto, denuncia o desvio de dinheiro público em qualquer canto do Brasil.

“A corrupção causa males em todos os níveis e em todos os tamanhos. Não importa que ela seja de bilhões ou que ela seja alguns milhares lá na ponta, em uma prefeitura onde nós costumamos fiscalizar. E você tem mostrado, em excelentes programas, como a corrupção mata. Mata porque impede que funcione o serviço de saúde, porque impede que funcione o equipamento no hospital lá da pequena cidade, porque tira merenda da boca das crianças. Essa pequena corrupção, nós também atuamos nela. Atuamos em todas as pontas dentro das possibilidades que temos”, ressalta.

Prestes a deixar o cargo no próximo dia 31, o ministro Jorge Hage responde a uma última pergunta:

Fantástico: Que recado você pode deixar para aquele que está desviando dinheiro público, que está mexendo nesse dinheiro que é dos brasileirinhos, que é da merenda, da saúde, da educação?

Jorge Hage: Que esse bandido de colarinho branco, quem sabe amanhã ele pode acordar 6h com a PF na porta dele.

Cadê o dinheiro que estava aqui? Na estreia do quadro, no mês passado, o repórter secreto esteve na cidade de Anajatuba, no Maranhão, e revelou um esquema de empresas-fantasma usado para desviar dinheiro dos cofres da prefeitura.

O repórter secreto descobriu o responsável por essas empresas, e todo mundo quis perguntar a mesma coisa: mas afinal, senhor Fabiano Bezerra, cadê o dinheiro que estava aqui?

O dinheiro começou a aparecer. Foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão em endereços de pessoas ligadas ao esquema. Foram apreendidos documentos, computadores, talões de cheques com folhas em branco assinadas pelos laranjas de Fabiano, além de jóias, uma coleção de relógios importados e uma arma.

A investigação também revelou que as empresas-fantasma tinham contratos com muitas outras prefeituras além de Anajatuba. “Tanto na empresa A4 quando na FF Produções, esses contratos chegam a mais de R$ 30 milhões, envolvendo pelo menos 30 prefeituras”, afirma o promotor público Marco Aurélio Rodrigues.