Alemanha esconde uma realidade

29/09/2013 12:01
Lúcia Müzell

Atrás do título de maior economia da Europa e quarta maior potência mundial, a Alemanha esconde uma realidade muitas vezes difícil sob o ponto de vista social: o país tem índices elevados de pobreza e os baixos salários foram um dos principais temas da campanha eleitoral para as eleições legislativas do último domingo. Os social-democratas queriam instaurar um salário-mínimo na Alemanha, algo que não existe no país.

De acordo com o Instituto Federal de Estatísticas da Alemanha Destatis, 15,8% dos alemães correm o risco de ficar pobres, contra 14% na França ou na Suécia. A média europeia é de 16,9%. Os aposentados são os mais atingidos pelo problema, muitos deles com rendas mensais que não chegam a 952 euros, considerada a linha de pobreza no país. A queda da demografia alemã só piora situação, por mais que o país tenha se aberto à imigração profissional.

As regras trabalhistas flexíveis e o baixo custo da mão de obra, em comparação com a vizinha França ou outras economias ricas da Europa, são algumas das chaves para explicar a alta competitividade do país e os baixos índices de desemprego, apesar da crise internacional. Isso só é possível porque, na Alemanha, os salários são negociados diretamente entre os sindicatos e os empresários.

Mas esta situação está sendo cada vez mais questionada, como explica Sabine Le Bayon, especialista na economia alemã do Observatório Francês da Conjuntura Econômica, ligado à Sciences Po, em Paris. “Sentimos cada vez mais, nos últimos anos, que a pressão está aumentando. Inicialmente, somente alguns sindicatos apoiavam um salário-mínimo legal como na França, imposto pelo Estado. Mas pouco a pouco, mais sindicatos foram se unindo a esta causa, enquanto uma parte dos empresários está menos reticente”, explica. “Além disso, a opinião pública está vez mais sensível a este assunto porque vários estudos mostram, por exemplo, que há quase 2 milhões de alemães que ganham menos do que 5 euros por hora, 22% dos assalariados ganham pouco na Alemanha, contra 6% na França, e tem muitas pessoas em trabalhos precários que ganham extremamente mal e que não têm os mesmos benefícios.”

Sabine Le Bayon acha que dificilmente a Alemanha vai passar a ter um salário-mínimo, mesmo que a chanceler Angela Merkel, reeleita no domingo, forme uma aliança com os social-democratas. Reformas no sistema de negociações trabalhistas, entretanto, devem ser feitas para evitar salários baixos demais, o que estava comprometendo o consumo interno na Alemanha.

“Nos últimos dois anos, com a lenta retomada do comércio internacional e com as taxas de desemprego muito baixas, os sindicatos estão conseguindo negociar bons aumentos salariais nos setores industriais, que se repercutem parcialmente no restante dos assalariados. Isso faz com que o consumo interno esteja mais dinâmico do que antes”, afirma. Graças à sua indústria forte, a Alemanha é a segunda maior exportadora mundial de bens de consumo, atrás da China.